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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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16 de Março de 2016 Alexandre Henry

Sexo além da compreensão

Mesmo as pessoas mais duras de coração, mesmo as mais ruins de caráter não conseguiriam esconder o espanto e a rejeição diante de algo como o falecimento da pequena Sophia Lauren. A bebê de seis meses foi estuprada até a morte em Uberlândia no último sábado e o principal suspeito é o padrasto.

Vou me abster de qualquer acusação contra o suspeito, pois isso é trabalho da polícia e eu sempre prefiro aguardar o desfecho da ação criminal para formar convicção sobre um delito. De toda forma, independentemente de quem cometeu uma atrocidade dessas, o próprio fato em si é algo que vai além da compreensão de qualquer um. Para os religiosos, isso é obra do demônio. Para os estudiosos em comportamento, isso é uma patologia mental. Da minha parte, não consigo definir alguém que comete tal crime. Aliás, vou mais além: não consigo compreender uma pessoa sentir desejo sexual nem mesmo por pré-adolescentes, quiçá crianças e, pior ainda, por bebês. Não há qualquer apelo sexual em um corpo ainda em formação, não há qualquer escape de libido ali. O mesmo vale para animais. Como sentir desejo por uma vaca, um cachorro, uma cabra? Você pode até descer a teorias da psicologia, se é que existem, para explicar que as taras e os fetiches humanos não encontram limites e que, analisando bem, isso nem é uma patologia e, sim, um marco comportamental. Ocorre que um traço da personalidade, por mais que ele seja natural (???) da pessoa, não pode ser justificativa para a liberação de atos que afetam seres sem capacidade de compreensão. Recentemente, o Tribunal Constitucional da Alemanha julgou uma ação de duas pessoas que diziam se sentir atraídas por animais e que a prática não deveria ser proibida. A decisão foi pela manutenção da proibição, algo que achei correto. Sou bem favorável à ampla liberdade pessoal, a deixar que duas pessoas façam o que bem quiserem entre elas. Desde que, claro, as duas tenham capacidade de discernimento. Uma criança e um animal não são capazes de saber exatamente o que aquele ato significa e, se soubessem, talvez não quisessem praticá-lo. Isso justifica a proibição.

Ainda vejo outro lado da questão. Eu sempre liguei o sexo ao verbo "desejar" na voz ativa e, necessariamente, também na voz passiva. É preciso desejar, mas também é preciso ser desejado. Sexo sem que a outra pessoa queira é desestimulante e nem deveria ocorrer, mesmo quando não há violência ou ameaça. Sexo bom é sexo feito a dois por completo, ou seja, com consciência e desejo mútuos. Isso é algo que uma criança ou um animal não podem oferecer e, por essa razão, não há nada que me faça aceitar a ideia de que uma relação dessas traga algum prazer.

Alexandre Henry

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