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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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30 de Maio de 1996 Alexandre Henry

Se isso virar mania

A coisa não está para brincadeiras, mas de jeito nenhum. A gente vê muita moda começar lá no meio da favela, vir assim se enraizando e de repente parar no domínio geral da população, ganhando adeptos até entre os abonados. RAP brasileiro, por exemplo, não nasceu numa boate da Tijuca no Rio, mas foi ganhando voz pouco a pouco na boca do povo lá de Vigário Geral. E como a vida é ao mesmo tempo engraçada e trágica! Tem uma certa moda por aí que anda me deixando meio preocupado...

De uns tempos pra cá, a gente tem visto surgirem seqüestros meio inusitados, principalmente por causa das pessoas que os executam. Gente do céu, está virando mania agora esse negócio de universitário armar seqüestro! Deus me livre e guarde, que já estou pra lá do meio da faculdade e não quero ser pego por essa moda!

O caso da estudante Márcia Carrasco, que faz (ou fazia) engenharia no Mackenzie, em São Paulo, foi o início de tudo. Menininha até ajeitada, com um futuro que poucas garotas da sua idade têm, ela simplesmente viveu uma aventura romântico-criminosa com o seu namorado funileiro. Depois, contou uma lorota que surdo deve ter escutado o tamanho da mentira. Aliás, eu abro aqui uma brecha para falar de criminosos meio idiotas, por serem principiantes ou por serem burros mesmo, como num dos casos contados em um livro recentemente lançado nos EUA (outro dia eu passo o nome). Conta o tal livro que, numa cidade bem distante daqui, estavam ocorrendo furtos rotineiros de moedas, daquelas máquinas eletrônicas que vendem tudo na hora. Num belo dia, os policiais prenderam um suspeito para fazer averiguações rotineiras. Como não havia provas para poder mantê-lo preso, o suspeito foi solto mediante o pagamento de uma fiança de US$ 400,00. Será que eu preciso contar o resto? Pagou a fiança com moedas! Dançou, é claro!

Voltando à vaca fria, essa história da Márcia já está batida, já é notícia amanhecida. Apareceu uma mineira e fez melhor: como diria o cara do boteco, depois de cinco doses de caninha, a menina seqüestrou-se a si própria. Estudante de Direito em Uberaba, segundo contam por aí a moça estava precisando de grana e armou uma pra cima dos pais. Na minha opinião, ela até pensou direitinho, afinal de contas exigiu que o resgate fosse depositado em sua conta, pois os "bandidos" retirariam o dinheiro com o cartão dela. Só que... a moça não estudou Direito Penal como deveria e esqueceu que cheque bloqueado é estelionato! Olha, pessoal aí da Universidade de Uberaba, vamos caprichar mais um pouquinho nessas aulas, hein! Agora, sabe o que eu acho mesmo? Que ela não tem amor a si própria. Não por ter jogado o seu futuro fora, quando estava quase terminando a faculdade, mas por achar que vale apenas R$ 15.000,00. Ah, dá um tempo! Se fosse eu, pra ser modesto, botava pelo menos uns cenzinho aí, pra começo de conversa! Tá achando o quê?

Mas, devo temer não só por mim, em meio a essa mania de universitário armar seqüestro, devo temer também pelo meu irmão mais novo. Não, porque depois que uma menininha de Jacareí, em São Paulo, com apenas 9 aninhos de idade, também "seqüestrou-se a si própria", eu vou começar a tratar o meu irmão melhor. Sei lá, né, de repente dá uma louca nele de querer comprar uma fita de vídeo-game, ele pode não ter dinheiro... Com o meu irmão isso não acontece, mas eu conheço muitos garotinhos de 10 ou 11 anos, talvez eu precise abrir mais os olhos, senão... Santa Asneira da Pá Virada! Onde eu estou indo com essa conversa?!

Agora é sério, a tal menina de Jacareí que se seqüestrou para não fazer uma prova de ciências mostra que alguma coisa está meio doida. Tem gente normalzinha da Silva por aí virando psicopata e criminoso. Tô fora dessa! Ah, eu já ia me esquecendo daquela outra lá de Paris, da modelo rebeldezinha que resolveu viver um amor perigoso e acabou no xilindró. Essa é mais uma que não estava contente com a vida boa e resolveu estragar tudo para ver como era o submundo. Bem, eu imaginaria coisas mais interessantes para ela fazer com aquele corpinho, mas deixa pra lá. Quem entende essa gente esquisita, não é mesmo?

Alexandre Henry

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