Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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12 de Junho de 1996 Alexandre Henry

O sutiã da mamãe

"Aquela sala do fórum estava um horror. Quilos de papéis e processos enormes espalhavam-se pelas inúmeras estantes. Largado por sobre uma poltrona rasgada, um velho juiz com os seus lá cinqüenta e poucos anos reclamava:

- Meu Deus, eu vou ficar louco! Onde já se viu tanta briga, tanto processo?! Isso aqui nunca ficou desse jeito!

E lá se foi ele, todo carrancudo e estourado pela semana interminável de julgamentos, para dar início a mais um:

- De acordo com o processo encaminhado a esta Vara, o reclamante, Fábio de Abreu, brasileiro, 19 anos, exige indenização pelos dois anos e meio de namoro em que dedicou sua vida à reclamada, Juliana Rezende, brasileira, 18 anos. Alguma declaração do reclamante?

- Tenho, meritíssimo! Como Vossa Excelência pôde ler, por mais de 30 meses eu suportei essa galinha aí...

- Respeito, isso é um tribunal!

- Desculpe, meritíssimo.

- Seja breve.

- Eu vou ser. Pois eu digo que fui obrigado a manter um relacionamento público vexaminoso durante esse tempo todo. Excelentíssimo Juiz, inúmeras vezes eu fui obrigado a agüentar sermões de ciúmes bestas que se estendiam até altas horas! E quantos amigos eu perdi por conta dos chiliques que ela promovia? E as festas? Fui obrigado a permanecer trancado em casa durante todas as intermináveis cólicas dela e ainda tive que agüentar o seu mau humor!

A reclamada interveio nervosa:

- Amigos uma ova! O Renatinho por acaso é seu amigo? Coitado, Seu Juiz, só cego que não vê! Aquele sem vergonha vivia dando em cima de mim!

- Não bota o Renatinho no meio dessa história! Ele é um santo!

- Santo... Hum! Santa ingenuidade!

- Meritíssimo, essa menina me causou vexame ao contar pras amigas dela coisas da nossa intimidade.

- Seja mais claro.

- Ela contou que eu ronco quando durmo no colo dela e que escorre uma babinha da minha boca quando eu beijo...

- Contei mesmo. E ó, Doutor, nem te conto o resto, viu? É cada falta de educação!

- Tá vendo, Seu Juiz?! Agora até o Senhor já sabe! Como fica a minha moral e a minha reputação?

- Fica como sempre esteve: zero! O Fabinho é louco, Seu Juiz! Ele me levou numa festa da família dele e me deixou sozinha uma tarde inteira com a mãe, as tias e a avó dele. Eu quase morri! Além do mais, eu também fui humilhada. Ah, essa eu conto, mas conto mesmo...

- Juzinha, nem se atreva!

- Juzinha é a mãe!

- Respeito no tribunal! Sem colocar a mãe no meio!

- Tá vendo, não tô falando, Seu Juiz? Ela é implicada com a minha mãe, disse que a minha mãe é velha e fofoqueira! Fofoqueira é aquela baleia da mãe dela!

- Olha o tapa, Fabinho! Não fala mal da mamãe, viu?! Ah, agora eu conto! Seu Juiz, o Fabinho, esse aí do seu lado, é um pervertido! Teve um dia, sabe, em que a gente ficou sozinho lá em casa, que ele queria porque queria que eu colocasse o sutiã da mamãe...

- Mentira, eu nunca falei isso...

- Falou sim, seu Fábio. E depois ainda xinga a minha mãe! Doutor, esse moleque é doido!

- Ela que queria que eu pusesse o sutiã! Eu fui obrigado! Ela falou que terminava comigo se eu não colocasse!

A menina explodiu em choro:

- Pára, Fabinho, pára! Não precisa ficar me magoando desse jeito! A gente fez aquilo porque quis, tá? E agora não adianta você vir com essa história de indenização, que o CD do Shelter eu não dou de jeito nenhum, é da minha coleção! E nenhum outro, viu? Você é muito bruto, seu estúpido!

- Desculpa, Juzinha...

O casal se levantou e saiu discutindo pelos corredores do fórum, com ele prometendo que não queria mais os bens dela, os tais quatro CD’s. E na sala, um juiz esquecido pelos dois e cansado pelo nono julgamento naquele dia de casos de namoro mal resolvidos chamou o próximo casal, que esperava para ver com quem ficaria o cachorro Max, presente do último dias dos namorados, antes dos dois terminarem..."

PS: Cuidado com a Lei do Concubinato, o bicho agora tá pegando! Namoro também dá divisão de bens. Salve os seus CD’s!

Alexandre Henry

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