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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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28 de Março de 1996 Alexandre Henry

O pior de todos os males

Dias atrás, eu estava conversando com uma amiga paulista sobre relacionamentos e coisa e tal, quando de repente ela me olhou sério e soltou o verbo: "Meu Deus, mas como mineiro tem complexo de corno!" Será? Eu acho que não são apenas os mineiros que têm esse complexo, mas todos os brasileiros. Porque se você ainda não percebeu, brasileiro é assim: pode xingar de bicha, de filho disso, filho daquilo, mas se falar que o cidadão é corno... aí o pau come! Aliás, não precisa nem falar, basta insinuar e a lenha já foi pro fogo.

O pior, dizem as más línguas, é que, se realmente se consuma o ato de "cornificação", o infeliz do chifrudo nunca mais se torna o mesmo. Pelo resto da vida irá carregar aquele peso na cabeça e, por mais que o tempo passe, sempre lembrará que um dia foi trocado por outro. Na hora do crime, porém, as reações são muito variadas, dependem da personalidade da vítima e de como se dá o flagrante. Dizem, e isso eu não confirmo, que o gaúcho mata a mulher e o amante; o mineiro mata o amante, espanca a mulher e a bota pra fora de casa; por fim, o goiano bebe uma cachaça e procura um companheiro de chifre para formarem uma dupla caipira! (Isso é da boca do povo, não tenho nada a ver com isso!)

Mas analisando canções populares, chego à conclusão de que o passo inicial de toda traição se dá muitas vezes quando o sujeito desconfia da mulher. Como dizia aquela música: "Toda noite é a mesma coisa, eu procuro e você não quer, faz de conta que está dormindo, nem parece minha mulher". Nessa hora, as coisas já não andam boas, mas o sujeito ainda insiste: "Mesmo doendo no peito te quero comigo, o teu jeito felino machuca e dá prazer". É aquele momento crucial, quando a vizinhança inteira já sabe, menos o infeliz. Fica todo mundo sentindo uma pena do sujeito... mas ninguém conta! Aliás, há uma velha história popular, mais ou menos assim: dizem que o chapéu-de-boi foi reclamar pra mulher que, quando chegava em casa, alguém passou de carro e o chamou de corno. A mulher diz que não, foi só impressão dele. No outro dia, o mesmo sujeito do carro passa e grita: além de corno é fofoqueiro, hein!

O próximo estágio é o do flagrante, o momento mais perigoso, porque ninguém sabe qual vai ser a reação do corno. "Daí a pouco eu mesmo vi o fuscão e os dois se desmanchando de amor. Fuscão preto..." É uma briga feia, elogios de "vagabunda" e daí pra frente, cacos de louça por todos os cantos e a mala arrumada de qualquer jeito. Isso quando não acontece o pior: morre o amante, morre a mulher e morre o corno ("Não conseguiria viver sem ela"). É, mas se não houve mortes, vem o velho lengalenga: "...risque o meu nome da sua agenda, esqueça o meu telefone, não me ligue mais!"

Aí começa uma longa estrada. No início, fica tudo bem, ainda dói, é claro, mas as farras com os amigos compensam: ele é um homem livre, pode fazer o que quiser sem ter que dar explicações pra "vagabunda". Só que depois... "E saio a te procurar, nas esquinas em qualquer lugar, e às vezes chego a te encontrar num gole de cerveja". Dá-lhe dor de cotovelo! O sujeito não entende como ainda pode amar a mulher que lhe botou um belo par de chifres; começa a vê-la em qualquer lugar, passa na porta de sua casa, fica de longe, pergunta aos amigos se ela está bem, se está feliz... Chega um momento e ele explode: "Seu amor ainda é tudo!" O corno então implora, chora, se derrete todo, "não consigo viver sem você, minha santa!" Está ferido, mas acima de tudo sente um desejo incontrolável por ela, quer tê-la como o outro a teve! E, no final de tudo, se ela o perdoa pelas suas ofensas, se ela o perdoa porque ele a magoou, então ele volta pra casa de cabeça baixa, mas todo cheio de si: "Sou corno mas sou feliz!"

É, brasileiro tem medo mesmo de ser corno. E esse é um assunto tão longo que daria um livro. Mas eu vou parar por aqui, porque senão daqui a pouco vão me chamar de corno e aí eu vou ter que partir pra ignorância, porque corno é a mãe, tá ouvindo?!

Alexandre Henry

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