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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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23 de Maio de 1996 Alexandre Henry

O baseado do Gabeira

Olhando hoje em dia um Fernando Gabeira todo preocupado com as causas jovens, engajado na luta pela descriminalização da maconha, importando um pouquinho do que ele chama de "erva-light", a gente até consegue ver o problema como fácil de resolver. É, claro, não é? Descriminalizou, acabou o tráfico. As pessoas terão acesso a uma erva da boa, com selinho do governo e tudo. Legal?

Daí quase acontece uma rebelião na Universidade de São Paulo, onde os alunos de História e Geografia estão correndo o risco de terem que pagar para os traficantes se quiserem assistir às aulas, mas tudo não passa de um problema de falta de segurança. Talvez o Gabeira ainda não tenha ido a uma escola do governo à noite, aquelas bem de periferia onde os alunos mais novos são mais velhos que os próprios professores. Essas escolas representam o fundo do poço de um sistema educacional que nunca funcionou direito. Assim como a gente vê nos filmes americanos, acontece também no Brasil do professor entrar na sala de aula, depois de um interminável dia de trabalho, e se deparar com os alunos fumando um baseado e traficando lá dentro. O que o Gabeira teria a dizer sobre isso? Qual seria a defesa desses professores que ficam acuados diante das ameaças dos alunos-traficantes?

Tudo bem, tudo bem, é muito bonito ver a galera apitando lá na praia para fazer a polícia de boba (SIC), mas olha, a coisa não é bem assim, viu? A moçadinha de carro novo vai lá na areia, toma um solzinho, fuma o seu e depois vai pra casa, onde a comida vai estar pronta na panela e a cama sempre arrumada. Eu compreendo toda a luta do Gabeira, afinal de contas a maioria das pessoas sabe que a maconha é uma planta como qualquer outra da qual se usa as folhas secas para fazer um cigarro artesanal. O efeito é bobo, muita gente nem sente nada, e logo passa. Além do mais, dá fome e faz o adolescente magrelo comer, ou seja, o coitado pode até ficar melhor alimentado quando passa a fumar. Pô, mas será que é só isso?

Voltando à questão das escolas, ninguém mais fica chocado ao saber do uso de drogas em escolas públicas, principalmente no período noturno. Agora, será que não tem diferença quando a coisa acontece na tão falada melhor universidade do Brasil? A professora chefe do Departamento de História da USP simplesmente foi ameaçada pelos traficantes de crack, dentro do próprio prédio da faculdade, de ser agredida caso falasse alguma coisa do marginal que barrava a porta do banheiro, enquanto o outro vendia drogas lá dentro. Se numa universidade onde o orçamento diário (não é mensal, é por dia!) ultrapassa 1 milhão de dólares a situação está desse jeito, como estará no resto onde falta tudo?

Eu fico com uma boa frase surgida nesses tempos: quando você pensar em descriminalização da maconha, não pense no menininho mimado de classe média que invade Copacabana com os seus apitos. Pense nas favelas onde a droga está enraizada, pense em todas as conseqüências desse ato. Ou então, dê uma voltinha por Amsterdam, lá na Holanda, onde as drogas leves são toleradas, e você verá a podridão que é a cidade, o ar macabro e horrível dos jovens entorpecidos soltos pelas ruas.

Aumentar o discernimento entre traficante e usuário de drogas talvez seria a saída mais inteligente para o caso. Pois a grande diferença reside aí: quem trafica precisa de punição, quem consome precisa de ajuda. O Gabeira deveria recuperar a sua tão famosa tanga da volta ao Brasil e sair com ela pelos becos das favelas onde um baseado inocente leva o garoto à cocaína e ao tráfico. Ou então raciocinar que os traficantes não se entregarão fácil, mantendo os seus lucros daí por diante com o aumento da venda de drogas mais pesadas, que continuarão proibidas. Ser legal com a juventude é batalhar para fazer uma universidade como a USP sair da podridão e do descaso em que ela se encontra, ou então dar possibilidade aos jovens mais pobres, que não podem passar o dia todo na praia, de irem à escola após um dia de trabalho para poderem realmente aprender algo sem o incômodo de traficantes. Outras idéias também serão bem vindas. Até a semana que vem!

Alexandre Henry

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