Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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20 de Abril de 2016 Alexandre Henry

Não teve tiro

Existe uma máxima de que o brasileiro é um povo pacífico, que prefere resolver suas pendências sem violência. Acredito que essa imagem se deva à história do Brasil de participação em poucas guerras e de uma diplomacia que sempre procurou defender o diálogo antes de tudo.

Particularmente, porém, nunca concordei muito com essa ideia de povo pacífico. A razão? Bom, se olharmos para o passado, a única guerra da qual o país participou por inteiro foi a do Paraguai, no século XIX. Sim, participou também da 2ª Guerra Mundial, mas com uma força pequena para as proporções do país. Quanto ao conflito na América do Sul, leia um bom livro sobre ele (recomendo o "Maldita Guerra") e você verá que os brasileiros promoveram uma verdadeira carnificina no Paraguai. Mais do que isso, somos um dos países com mais homicídios em pleno ano de 2016. Aqui, mata-se por uma dívida de R$ 10,00 ou por uma reclamação por conta do barulho do vizinho. Mata-se para vingar uma traição amorosa ou como reação a uma fechada no trânsito. Não há justificativa na pobreza para tamanha violência, já que países muito mais carentes não possuem tamanho índice de assassinatos. Nem a propagada impunidade pode ser argumento, vez que temos uma das maiores populações carcerárias do mundo. Em resumo, o Brasil é um país de gente que mata por qualquer bobagem, o que nos afasta da imagem de povo pacífico.

Dito isso, fico feliz que estejamos passando por toda essa crise política sem que tiros sejam algo corriqueiro. Até mesmo as agressões físicas, ainda que por simples tapas ou safanões, parecem ser bastante raras para o nível de adrenalina e discordância que estão marcando as discussões políticas. Isso é bom, acredite em mim. Não é pelas armas que vamos consertar o país ou melhorar o nível dos políticos. O caminho da bala só leva a mais violência e pode trazer para qualquer país o pior dos pesadelos, que é a guerra civil, uma tragédia que supera inclusive as guerras externas. Quando vizinhos pegam em armas uns contra os outros por conta de preferências políticas, lágrimas e desesperança são as únicas faces no horizonte.

Por tudo isso, parabéns aos brasileiros pela renúncia à violência física em meio a tanta agressividade verbal. Talvez esse não seja o caminho mais curto para um país melhor, mas certamente é o mais seguro e o mais duradouro. Que possamos continuar divergindo politicamente de forma enérgica, que possamos seguir em frente com defesas aguerridas de nossos pontos de vista políticos. Mas, que tudo isso continue como tem sido feito até agora, ou seja, sem o derramamento de um mar de sangue.

Alexandre Henry

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