Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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27 de Janeiro de 2016 Alexandre Henry

Inveja do urso

Existe um desenho muito bacana chamado "Masha e o Urso". É feito na Rússia e ganhou o mundo pela fofura de sua personagem principal, uma menininha que vive levando confusão para um agradável e paciente urso. A maioria das crianças bate o olho no desenho e vira fã imediatamente. Procure na internet, se você não conhece, e assista a um episódio pelo menos. Vale a pena!

Pois é, já assisti a vários com a minha filha e, cada vez mais, sinto inveja do urso que protagoniza o desenho ao lado da Masha. Ele mora na casinha dele e sente um prazer imenso em pequenas atividades do cotidiano que geralmente desprezamos ou fazemos de forma automática. Preparar uma geleia é uma festa para o urso. Jogar damas com ele mesmo, também. Tomar um chá no jardim, sentado sem fazer nada, só olhando a natureza ao redor, parece ser um programão. Da mesma maneira, assistir a um jogo de futebol, pescar, tirar uma soneca e por aí vai. O urso amigo da Masha leva uma vida tranquila e simples, tirando prazer das mínimas atividades.

E eu? Bem, eu assisto aos desenhos com a minha filha e fico pensando no quanto eu deveria ser daquele jeito, mas acabo sendo o contrário. Tenho levado a vida na correria, sempre tocando um projeto aqui, trabalhando ali, conferindo as notícias na internet, postando e acompanhando as redes sociais o tempo todo, estressado com um monte de coisas para fazer, enfim, a vida vai passando sem que eu sinta prazer em me sentar no sofá, esticar as pernas e ficar parado, sem fazer nada, só existindo. Sabe o ócio, o "dolce far niente", o prazer de ficar à toa? Temo ter perdido a referência do que é isso, ao contrário do simpático urso da Masha. Talvez minha hiperatividade explique um pouco a questão, mas o fato é que todo mundo precisa aprender a relaxar um pouco, a se desligar, a simplesmente ficar quieto e sentir o ar entrando suavemente pelas narinas. O problema é que, especialmente em uma era de hiperconexão e de redes sociais te chamando a atenção a cada segundo, está cada vez mais difícil se desligar ou se concentrar em coisas simples e gostosas do mundo real.

Acredito que seja por isso que muita gente esteja se dedicando às corridas e às trilhas de bicicleta. É certo que nem todo mundo consegue se desligar durante uma trilha, por exemplo, buscando sinal de celular no alto de um morro ou perto de uma vila qualquer. Mas, ainda assim, já é algo melhor do que ficar dentro de casa com os olhos vidrados em um monitor. É preciso relaxar, é preciso desligar, é preciso sentir prazer em coisas simples da vida. Digo e repito isso para mim mesmo o tempo todo, para ver se eu ponho em prática aquilo no qual acredito, mas não pratico.

Alexandre Henry

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