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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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15 de Janeiro de 2014 Alexandre Henry

Do lado do mais fraco

O brasileiro tem uma mania muito arraigada de sempre se posicionar do lado do mais fraco, independentemente da situação. Claro, desde que ele não esteja envolvido na contenda e não seja o mais forte da disputa. Se essa não for a situação, ele sempre tomará partido do “coitadinho”.

Tome como exemplo um acidente de trânsito no qual um sujeito dirigindo uma Ferrari atropele um trabalhador em uma bicicleta velha e enferrujada. Ainda que o trabalhador tenha atravessado a rua em lugar impróprio, ainda que o dono da Ferrari esteja dentro da velocidade permitida ou que o ciclista tenha atravessado no sinal vermelho, a tendência do brasileiro em geral será culpar o motorista que cometeu aquela barbárie contra o “pobre coitado”. Somos assim. Não torcemos ao máximo pela seleção do Taiti na Copa das Confederações, mesmo eles jogando uma porcaria de futebol diante da beleza do jogo da Espanha? E nas disputas entre empregado e empregador, a tendência não é achar que o empregado sempre tem razão, ainda que ele não tenha trabalhado direito, não tenha cumprido a carga horária e seja um preguiçoso? Sim, o brasileiro em geral, resguardadas as poucas exceções, é partidário da “cultura do coitadinho”.

Olhar pelos mais fracos é uma virtude muito importante para um povo. O problema é que, no Brasil, essa virtude não existe, ainda que exista esse comportamento da massa se colocar sempre ao lado do mais fraco. Mas, tal comportamento se dá apenas quando há uma disputa com o mais forte. Quando o “coitadinho” não está peleando com ninguém, é abandonado à própria sorte. Todo mundo quer linchar o dono da Ferrari que atropelou o trabalhador ciclista, mas se não existe atropelamento, ninguém se preocupa em ajudá-lo a trocar o pneu careca da sua bicicleta. Assim acontece em todas as situações. Gostamos de tomar partido em uma briga entre desiguais, mas não de ajudar o desfavorecido quando não há disputa alguma. E, para piorar as coisas, tomamos partido na briga sem refletir sobre quem tem razão ou não. Ainda que o pobre sujeito tenha causado o acidente, ficamos do lado dele, comportamento que favorece o surgimento de pessoas inescrupulosas, as quais, sob o mando do “coitadinho”, aproveitam-se dessa cultura brasileira para sempre levar vantagem, mesmo estando errado.

Enfim, se é para agirmos de forma correta, vamos tomar partido em uma disputa em favor de quem tem razão, não de quem é mais fraco. E, caso não exista disputa alguma, que demonstremos preocupação real com o menos favorecido, ajudando-o a se tornar um pouco mais forte.

Alexandre Henry

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