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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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18 de Abril de 1996 Alexandre Henry

Debaixo daquela saia

Estão chegando os últimos dias do mês de abril e já deu pra sentir um friozinho de inverno. Pois é, final de abril, além de começarem a chegar aquelas famosas frentes frias da Argentina, tem também o gelo na barriga por causa da escola. Nada a ver o que eu disse, né? Mas não tem importância, eu vou continuar assim mesmo.

Pois como eu dia dizendo, se nada mudou durante esses três anos em que já estou longe das salas de aula do colegial, agora é a hora de enfrentar as provas finais do bimestre. Digo se nada mudou porque no Brasil a educação é que nem a economia: muda toda hora mas nunca sai da crise. É plano disso, plano daquilo, no final das contas não muda nadinha de nada.

Mas, voltando novamente ao assunto das provas (hoje a coisa está difícil!), agora é o momento dos alunos mostrarem toda a sua criatividade. Tem gente que inventa um novo jeito de estudar, outros testam as fórmulas batidas de memorização e, por último e sempre mais espertos, alguns apelam pra famosa e eterna cola. Ah, vai! Nem pense em dizer que nunca participou de um crimezinho contra provas escolares! Cola é que nem chifre: todo mundo já foi ativo ou passivo pelo menos uma vez, mesmo que não saiba. E tem gente que ainda pensa o contrário, coitado!

Eu não conheço muitas formas de se burlar um teste, mas com certeza deve haver milhares. A começar pela mais velha: o inesquecível papelzinho todo amassado, com aquelas letrinhas minúsculas, escondido em qualquer lugar onde o professor não veja. Essa forma ainda se subdivide: o autor do crime pode estar sozinho, neste caso então foi tudo premeditado e a cola foi escrita antes da prova, ou então o papelzinho serve pra fazer uma "transmissão" de conhecimentos. E olha, tem cada cara de pau! Às vezes a galera toda troca conhecimentos na frente do professor, sem dó nenhum!

Mas há formas muito mais ousadas ainda e todo mundo deve ter uma história pra contar. Uma vez, por exemplo, fiquei sabendo de um cara que foi fazer a prova de óculos escuros. Teve até a moral de passar uns troços pro olho ficar meio vermelho e falou que era conjuntivite. Aí, ele arrumou uma jaqueta larga e botou a cola dentro dela, de modo que desse pra ele ver sem ser notado. Bem, nessa pelo menos o cidadão foi infeliz e dançou feio.

Da parte das meninas as coisas já são mais fáceis. Teoricamente, e eu digo que é só teoricamente mesmo, as meninas tendem a ser mais quietas e a não praticarem esses crimes. É lógico, todas menos as que estudaram comigo! Não é por nada não, mas tinha umas que nunca iam à escola de saia. Daí quando era época de prova tava todo mundo lá com aquela saínha um pouco acima do joelho (como eu adorava essa época de provas!). Pronto, era só escrever o que quisesse na perna e tomar um pouco de cuidado pra não ser pego. Nenhum professor ou professora seria capaz de mandar uma menina levantar a saia.

E tem muito mais formas de se colar, mas não preciso ficar falando porque, como já disse, cada um tem a sua história. Fogo mesmo é quando a coisa dá pra trás e todo mundo dança. O pior ainda, nesses casos, é se você estudou pra caramba, decorou que o xixi fede por causa de uma tal substância química esquisita, decorou toda a seqüência de eletronegatividade e coisa e tal, passou a madrugada em cima dos livros e aí... anulam a prova! É fogo, viu, dá vontade de estrangular o idiota que deu bandeira e estragou tudo.

Já da parte das vítimas, também há alguns truques pra pegar os autores de cola. O óculos, por exemplo, serve para os dois lados. Fazer prova com o professor vigiando de óculos escuros é a maior roubada, porque você nunca sabe pra onde ele está olhando. Tentar colar nessa situação é fria e quase sempre acaba em tragédia. Melhor é deixar pra próxima, tentar estudar um pouco e esquecer tudo.

É, pra quem não tinha assunto acho que até falei demais. Mas que não pensem que eu estou fazendo propaganda a favor da cola, isso não! Também não sou contra; cada um na sua e pronto. Se bem que teve aquela vez, naquela provinha de matemática... nem me lembre!

Alexandre Henry

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