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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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6 de Julho de 2016 Alexandre Henry

Ciência feminista

Sem hipocrisia ou cinismo algum, digo que o movimento feminista deveria erguer um altar para a ciência, na intenção de homenagear quem mais ajudou as mulheres a encontrar um caminho que as permitisse começar a escapar da submissão masculina.

Os equipamentos que facilitam a vida doméstica são essenciais nesse processo. Quem já lavou roupa na mão sabe do que estou falando. Tradicionalmente, o homem ia ganhar o sustento fora de casa e a mulher tinha que deixar o lar em condições habitáveis, incluindo roupas limpas e comida na mesa. Hoje, muitas conseguem fazer isso e ainda trabalham fora, algo impensável sem a praticidade de um congelador, de uma lavadora de roupas e outros eletrodomésticos. Mas, esses aparelhos não tiveram nem um por cento do impacto que teve a pílula anticoncepcional, que chegou ao mercado há 66 anos para mudar o mundo. Muito mais do que os afazeres domésticos, o que escravizava a mulher era passar as décadas mais produtivas de usa vida entre gravidez e fraldas, continuamente. Minha avó teve dez filhos, por exemplo, algo bem comum. Com o anticoncepcional, a revolução ocorreu: as mulheres puderam ter prazer sexual sem, com isso, ter na sequência uma gravidez. Ao permitir que a mulher escolhesse não apenas se queria ter filhos, mas quantos e quando queria ter, a ciência libertou-a de uma escravidão biológica com consequências culturais nefastas.

Mas, mesmo com o anticoncepcional, a biologia ainda era cruel, já que o período fértil feminino é curto e pega justamente os anos dourados no campo profissional. É por essa razão que eu vejo com extrema felicidade - e o movimento feminista também deveria soltar rojões - o início de uma prática libertária: o congelamento de óvulos. Quantas mulheres não tiveram que abandonar suas carreiras profissionais ou prejudicá-las só porque, se não o fizessem, não teriam filhos? E quantas mulheres não ficaram com um marido nojento só porque o divórcio poderia significar o fim do sonho da maternidade, já que não daria tempo para iniciar um novo relacionamento com esse fim? Com a técnica do congelamento de óvulos, ainda que em estágio inicial de desenvolvimento, abre-se a oportunidade da mulher ganhar pelo menos 15 anos de período fértil, o que pode significar uma revolução profissional e cultural.

Na medida em que a prática se disseminar e se tornar mais acessível, as mulheres poderão ter ainda mais liberdade para explorar a carreira profissional e para decidir com calma quem será a pessoa a preencher o espaço no coração, aquele que todos nós, homens e mulheres, desejamos preencher. Uma revolução tão impactante quanto o anticoncepcional, apesar de muito mais discreta e muito menos celebrada. E viva a ciência!

Alexandre Henry

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