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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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5 de Junho de 1996 Alexandre Henry

Bad Girls

Na semana passada, eu falei sobre os seqüestros feitos por universitários que têm acontecido, mas como a minha cabeça anda meio tré-lé-lé, gastei quase uma semana para perceber um detalhe curioso: todos os crimes ou ameaças de crime que citei, e ainda o caso da modelo brasileira presa na França, foram praticados por mulheres.

Eu acho que as feministas não pensaram nesse lado ruim quando fizeram o seu movimento de libertação. E eu tenho que confessar o meu espanto em relação às mudanças de comportamento das mulheres, mais ainda das garotas. Sei não, viu, mas eu acho que esse negócio de liberdade assim de repente bateu meio errado na cabeça de algumas, que se transformaram em Bad Girls.

Garotas com uma quedinha para o mal começam a ser comuns. Para mim, o retrato mais fiel desse novo tipo de ser é o pintado no filme "Instinto Selvagem", na pele da Sharon Stone. Mulher moderna, inteligente, livre, mas capaz de fazer coisas inimagináveis, como cometer um assassinato e acordar sorrindo no outro dia. Isso que eu estou dizendo não tem nada a ver com aquelas mulheres de novelas e filmes que dirigem caminhões e são proprietárias de uma oficina mecânica. Isso é outra coisa. Estou falando de maldade, maldade pura, no sentido mais literal da palavra.

Essa característica humana sempre esteve relacionada com os homens, os construtores da guerra e das grandes lutas. Mas, pessoal, pelo menos as garotas já estão mostrando que os tempos mudaram. Em Sampa, como não poderia deixar de ser, um colégio está tendo que dar proteção às suas alunas no final da aula, porque elas estão sendo agredidas covardemente por grupos de adolescentes. Detalhe: grupos formados apenas por meninas. Pelo que se sabe da história, as Bad Girls do caso são revoltadas com a condição social das meninas da tal escola, condição privilegiada que elas não possuem. Por isso, simplesmente se revoltam e partem para a agressão às "burguesinhas", como forma de aliviar a revolta. Todo mundo concorda comigo que isso é coisa comum no universo dos garotos. Pois eu sempre imaginei que também deveria ser difícil, e talvez até mais, para uma garota pobre ficar olhando a outra rica, toda produzida, com roupinhas da moda e no carro do garotão. Isso é uma realidade, tanto que aconteceram essas agressões em São Paulo.

Mas o problema não pára por aí. Eu, por exemplo, morei oito meses num pensionato com outros sete caras, todo mundo estudante. E nesse tempo todo nunca rolou nenhum problema de sumir coisas ou algo parecido (a não ser sumiço de Miojo, porque tinha cidadão lá que estava perto de passar fome). Mas com as minhas vizinhas, quatro garotas estudantes que dividem um apartamento, dois meses foram suficientes para ir tudo para o brejo. Começaram a sumir roupas, dinheiro, perfumes e outras coisas. E não havia possibilidade de ser outra pessoa, pois elas não tinham faxineira e ninguém além delas tinha as chaves do apê. Bad Girls?

Eu não posso afirmar muita coisa a respeito desse assunto, porque parece ser uma situação tão nova que não há como definir se as meninas sempre tiveram esse lado negro ou se isso é moda de agora. Mas de uma coisa ninguém há de discordar de mim: quando garotas se reúnem, sai de perto que lá vem chumbo grosso. O cara nunca imagina aquela menina tão linda, tão acanhada, rasgando o verbo e falando de sexo, soltando palavrões e horrorizando em meio às amigas. Dizem por aí que mulher quando se reúne faz mais bagunça do que homem. Sei lá se isso é verdade, mas se não for, vai acabar virando. E se Nélson Rodrigues vivesse hoje, certamente as suas mulheres "bonitinhas, mas ordinárias" teriam outros papéis. Além de serem as eternas amantes ou esposas fiéis e infiéis, pegariam os tantos revólveres e facas que marcaram as histórias de Nélson Rodrigues e tingiriam de vermelho a delicadeza feminina.

Sei não, moçada, essa história ainda vai dar o que falar. Pelo jeito gatinha que é gatinha mesmo tem unhas e muito bem afiadas. E, deixando de lado qualquer besteira de guerra entre os sexos, é melhor não subestimar o lado menos bondoso das garotas. Certo?

Alexandre Henry

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