Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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25 de Julho de 1996 Alexandre Henry

Até o amanhã

Num lugar distante, um rapaz caminhava pela rua estreita da cidade, chutando as pedras que encontrava pelo caminho e enxugando as lágrimas. Já era noite, a pequena população parecia dormir. Ele não, acabara de perder o seu grande amor numa briga tola e queria ficar olhando um pouco as estrelas, para imaginar todas as formas de encontrá-la novamente e declarar a sua paixão. Em silêncio, sentou-se num banco de praça e ficou quieto, quando de repente ouviu uma voz:

- Tempo. Se alguém me ofertasse agora o meu último desejo antes da minha partida, eu pediria tempo...

Assustado, o rapaz viu que ao seu lado um velhinho falava qualquer coisa.

- O que o senhor disse?

- Tempo, meu filho. É a única coisa que não está ao nosso alcance. Mas olha, pensando bem, eu não pediria mais um ou dois meses de vida, isso não, viver agora já não é mais um prazer para mim. Eu pediria apenas para conseguir entender o tempo, com isso metade dos enigmas da vida estariam solucionados...

- Do que o senhor está falando? - perguntou o rapaz, estranhando aquele velho que fazia reflexões àquela hora ao seu lado, justamente no pior dia da sua vida.

- Meu filho, quando eu era mais novo que você, meu pai se foi. Eu chorei muito, passei todo o velório ao lado do corpo. Nesse dia, eu me senti a pior pessoa do mundo, porque achei ter vivido pouco com o meu pai. Se soubesse que ele partiria tão cedo, teria passado cada instante ao seu lado. Mas já não era mais possível. Foi a primeira vez que eu me senti impotente diante do tempo, porque eu nada podia fazer.

- Mas...

- Poupe suas palavras, meu filho, que as minhas são muito mais valiosas e carregam vários anos de aprendizado. Como eu lhe falava, a morte do meu pai me despertou para o tempo. Depois, passei a viver mais com a minha mãe, dava valor àquelas suas longas conversas, eu apenas olhando e a minha mãe sem entender o filho atencioso. Não precisava entender, a paz de coração quando ela também se foi explicaria tudo. Ah, queria apenas que as coisas fossem simples como aquele aceno de despedida! Besteira, meu filho, a gente aprende ontem, hoje e amanhã e mesmo assim não sabe nada. Como na vez em que perdi o meu grande amor. Sabe como foi? A gente estava junto há um tempo tão grande que eu achei ser dono de tudo. De repente, uma palavra errada, muitos desencontros, acabou antes que eu pudesse repousar a minha cabeça e dormir tranqüilo, para esperá-la no dia seguinte. Só que não havia dia seguinte, nada. Foram seis meses de desespero, quando percebi a gravidade da briga, passei a procurá-la todos os dias, declarava o meu amor, esperava-a na porta da sua escola, mandava cartas e mais cartas, chorava, implorava, fazia de tudo, só que nada adiantava. A cada vez que procurava por ela para dizer do meu amor, mais ela se afastava de mim. O tempo passou, meu filho, e me ensinou que ele próprio era a resposta para tudo. Entre as nossas lágrimas pelo amor que se desfazia, precisávamos apenas de tempo. Era tão simples como esse céu cheio de estrelas, mas eu não conseguia enxergar.

- Então, por que você gastaria o seu último pedido com uma lição sobre o tempo? Você já não aprendeu? - perguntou o jovem, enxugando uma lágrima.

- Não, eu não aprendi. Ela se foi, deixei os anos se passarem, um dia recuperamos o nosso amor, muitos anos depois, e fomos as pessoas mais felizes do mundo.

- Então! Eu não entendo...

- Meu filho, deixe o seu amor se acalmar um pouco, dê à sua namorada o tempo que precisar, ela voltará. Quando isso acontecer, você entenderá o meu pedido. Tudo o que precisamos saber é lidar com as horas, saber quando devemos adiantá-las e quando devemos atrasá-las. Agora vá, descanse um pouco. Eu ficarei aqui, sentindo saudades do meu amor e me perguntando como é possível fazer o tempo, que tantas vezes desejei tê-lo pela eternidade, passar mais rápido. Sabe, eu já estou muito velho para viver sozinho, preciso aprender a agüentar mais um pouco, a brigar com as horas. Falta-me apenas isso para reencontrá-la novamente, quem sabe em uma outra vida, porque ela deve estar lá esperando o tempo passar também, para a gente se reencontrar e aproveitar junto cada instante de nossas vidas.

Alexandre Henry

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Comentários

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