Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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25 de Novembro de 2015 Alexandre Henry

Aquela lista

Às vezes, tudo o que você precisa fazer é ligar. Sim, ligação daquelas em que você usa a sua voz mesmo. Pode ser apenas para dizer "Como você está passando?" ou para falar de futebol. Não vale rede social, pois a palavra escrita é como um retrato: pode até mostrar em detalhes o rosto, mas nunca vai transmitir a textura da pele ou o cheiro dos cabelos ainda molhados. A voz... Bem, ela traz o tom, o volume, as pausas, os suspiros e até, quem sabe, a batida do coração. Com ela, você mantém os laços de verdade e abre as portas para um abraço no mundo real, para aquele encontro que deveria ter acontecido desde muito tempo.

Minha vida não está completa. Falta ligar, trocar um dedo de prosa, combinar (de verdade) aquele encontro para jogar conversa fora, olhos nos olhos. Poderia fazer mais com a família, mas não é dela que estou falando. A parte que me falta é a dos amigos. Nem sempre fui assim: mesmo tendo muitos irmãos e primos, sempre tinha uma turma ou, quem sabe, dois ou três amigos próximos com os quais eu me lembrava que amizade é um lado muito bom da vida. Hoje? Paulinho Viola parece ecoar na minha cabeça... "Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas". Ou o Montenegro, com aquela musicalidade que suplanta qualquer chatice, quase que gritando para mim: "Faça uma lista de grandes amigos. Quem você mais via há dez anos atrás? Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais? (...) Quantos amigos você jogou fora? (...) Quantas pessoas que você amava / Hoje acredita que amam você?".

Eu poderia colocar a culpa no trabalho. Não, melhor: nas mudanças! Tantas cidades diferentes que não daria para manter as amizades. Será? E aquela gente estranha que já viveu em trinta cidades e guarda uma dezena de amigos do coração em cada uma delas, com os quais mantém contato permanente? Ok, não é o trabalho, não são as mudanças. Já sei! É a paternidade! Sim, eu prometi a Deus e a mim mesmo que seria um pai por completo, companheiro, presente, daqueles que realmente se senta com a filha e brinca de boneca com ela. Mas, minha filha vai crescer, vai mirar seus olhos para o futuro e não vai me enxergar, pois eu vou estar no passado...

Eu preciso recuperar aquela lista, rever os amigos de dez anos atrás, ligar e ouvir a voz de cada um deles. Como cantava Pink Floyd, "But you're older, shorter of breath and one day closer to death. Every year is getting shorter. Never seem to find the time". Não dá para ficar parado, assistindo a vida passar pelas postagens que os amigos fazem em frias redes sociais. É preciso ligar. Eu preciso ligar. A vida sem boas amizades não é uma boa vida.

Alexandre Henry

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