Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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15 de Fevereiro de 1996 Alexandre Henry

Ao som dos tamborins

Como eu já disse em uma outra oportunidade, o carnaval é a hora de passar a régua e fechar a conta do verão. E como no Brasil esses quatro (sic) dias de folia são mais sagrados do que qualquer imagem de santo, não dá pra falar em outra coisa. Aliás, é por isso que às vezes eu fico imaginando o quanto deve ser chato para uma pessoa que não gosta de carnaval superar essa longa semana. Eu, pessoalmente, gosto de carnaval, apesar de não ser muito chegado a grandes bagunças. Mas, e quem não gosta? Deve ser um pé no...

Bem, como o Brasil é um país democrático, pelo menos em alguns pontos, a galera do contra pode curtir outros programas mais pacatos, talvez ficar quatro dias no sossego de casa assistindo a uns filminhos, ou então se isolar do resto do mundo num canto qualquer, sei lá, tem saída.

Mas, deixemos os que não curtem o carnaval pra lá e vamos falar de outro assunto. Você já viu a nova campanha do governo para incentivar o uso de camisinha? É, porque agora é moda: todo ano o pessoal de Brasília vai lá e dá uma atiçada na moçada pra usar o negócio. E sabe o que eu acho? Tá mais é que certo, porque se você ainda não sabe o bicho de repente pega e você nem se dá conta. Na hora do "vamo vê", tá todo mundo lá se esbaldando e soltando a franga no meio do salão, e confete de cá, samba de lá, pega daqui, puxa dali, quando vê já tá num canto qualquer com alguém que certamente não irá ver (e muito menos reconhecer) nunca mais depois daquela noite. Aí na horinha, mas bem na horinha mesmo, a cabeça tá a mil, o álcool fazendo a sua parte, o pensamento meio tonto com todo aquele som alto e aquela gente fazendo folia, de repente quando vê já tá quase lá e... pronto! Que é bom, disso ninguém duvide. Sair pra pular carnaval e lá pelas tantas encontrar alguém legal pra curtir os pecados da carne é um prato cheio pra tornar o carnaval inesquecível. O problema é que... você já sabe, né? Quando tava lá, aquele calorzão de rachar, os corpos molhados de suor, "vai assim mesmo, da próxima vez eu prometo que uso". Com a mãozinha de Deus, tudo ocorreu nos conformes, foi apenas mais uma noite de embalos, só isso. O problema é que às vezes o céu tá de greve, como já disseram, e aí o tempo fecha.

Pois bem, chega desse papo! Já falei: é bom o governo cuidar do seu povo mesmo, esse dinheiro gasto com propaganda vai ser economizado com o monte de pacientes que ficarão livres da maldita. Só acho que o Planalto Central deveria ter um pouquinho mais de cabeça na hora de bolar as campanhas, só pra evitar uns furos como o caso do Bráulio, hoje um dos personagens mais famosos do nosso país! Cuidando disso, o resto tá limpo.

E passando do vinho pra água, quero só dar uma palavrinha a respeito da ilustre visita do astro-OMO Michael Jackson ao Brasil. Que coisa, hein? Não estou falando da questão da ética ou legalidade em se filmar numa favela. Estou falando do ponto em que chegou a vida do cara. Fiquei perplexo ao ver como o povo idolatra aquela figurinha magra, desbotada, com uma máscara no rosto pra não pegar doenças tropicais. Parece uma loucura, até a repórter da Globo quase chorou quando conseguiu entrevistar o cantor. Agora, imagine só como deve ser a vida desse cara?! E da Madonna, que também anda armando uns rebus lá na Argentina?! E da Xuxa?! Meu Deus, esse povo não pode nem sonhar em fazer o que faremos de hoje até terça-feira! Um ato tão simples, como ir a um clube pular carnaval, é o sonho mais distante de pessoas como Jackson. A Xuxa, coitada, precisou de ir a uma pacata passeata armada com vinte seguranças.

Olha, ainda bem que nós, simples seres humanos, temos a liberdade de caminhar pra onde o nariz quiser, sem ter qualquer problema. É bom a gente se lembrar desse detalhe quando estiver naquela liberdade total que é a folia de carnaval. E comemorar por isso, é claro! Além disso, como não poderia deixar de ser, carregar uma "borracha" no bolso só pra garantir. Talvez, quem sabe, a noite pode ser uma daquelas inesquecíveis...

P.S.: Carnaval me lembra aquela piada do gato, que ficou na avenida esperando a mãe desfilar fantasiada de tamborim. Boa folia para você!!!

Alexandre Henry

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