Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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7 de Março de 1996 Alexandre Henry

Algo difícil de entender

"Vou te contar, meus olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender. Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho".

Essas belas palavras, para quem não conhece, fazem parte de uma música do saudoso maestro Tom Jobim. Falam de uma forma poética e reflexiva sobre o tema mais comum em tudo o que eu já vi nesse mundo de Deus, principalmente na música: o amor, é lógico!

Mas não é sobre música que eu gostaria de falar, e sim sobre a necessidade de algumas pessoas de ter alguém ao seu lado, necessidades que vão desde o mais simples ato de carinho, como um colo no sofá da sala, até as mais alucinantes fantasias sexuais. Essas pessoas normalmente não ficam muito tempo sozinhas e suas relações tendem a ser duradouras, mesmo que complicadas. É só se esforçar um pouco e você se lembrará do amigo que sempre está namorando, seja lá quem for.

Eu conheço pessoas incríveis, que conseguem se envolver totalmente quando encontram alguém e suas declarações de amor são simplesmente lindas e sinceras, como se cada novo romance fosse o grande amor de toda uma vida. E eu tenho a maior confiança em falar que há realmente sinceridade em quem é desse jeito, porque a necessidade de ter aquela pessoa ali ao seu lado é tão grande que de repente o amor é isso, sei lá, é ficar louco por não estar na segurança daqueles braços e querer mais e mais que cada momento seja vivido a dois. Olha, desculpa se eu estou viajando, eu confesso ser muito ignorante para falar qualquer verdade sobre o amor. Mas todo mundo tem lá suas considerações, todo mundo já gostou de alguém, não é mesmo?

Outras pessoas são loucas e totalmente apaixonadas por uma única pessoa. Lembro-me do John Lennon. Meu Deus, como explicar um cara famoso, rico e com meio mundo às suas mãos, entregar a vida a uma mulher de beleza e outras qualidades contestáveis? E talvez tenha sido uma das maiores provas de amor já conhecidas. Só de lembrar as palavras de Lennon, as suas músicas, já dá pra ter uma idéia. Certa vez, ele disse o seguinte: "Espero morrer antes de Yoko, pois não saberia viver sem ela." Dá pra explicar? E as músicas que ele fez, a forma como se declarava e até mesmo pedia desculpas ("...I didn't want to hurt you, I'm just a jealous guy"), o nada que virou quando passou vários meses separado de sua mulher? Eu considero tudo isso como a maior expressão do verbo "amar".

Mas muita gente conhece também outras formas de amor, algumas bastante perigosas. No final do ano passado, por exemplo, a Universidade de São Paulo presenciou um dos crimes mais bárbaros de toda a sua história, quando um estudante de engenharia mecatrônica matou a ex-namorada, atirou no atual dela e depois se suicidou. Tudo por causa de um amor mal resolvido, se é que se pode resolver e muito menos entender essas coisas. Pois então, tem gente que é assim: possessiva, ciumenta e até mesmo violenta. É nessas horas em que eu me pergunto, e você também deve se perguntar, se isso realmente é amor. Será que é? Mas deixa pra lá.

Agora, cá entre nós, dá raiva mesmo é daquelas pessoas que parecem superar qualquer adeus da forma mais simples possível, não é? Que coisa chata! Você ali, se desmanchando em lágrimas, lembrando de cada palavra, de cada gesto, e a pessoa só na dela, como se nada estivesse acontecendo! Já me disseram uma vez que essas pessoas são as que mais sofrem, justamente por se fecharem e guardarem só para si toda a carga de sentimentos. Será verdade? Como diria um amigo meu: "pô, tudo bem ela ser forte, mas precisava ficar toda sorridente daquele jeito?". Ai, Deus, quem entende o amor?! Mas tudo bem, é isso o que eu tinha pra dizer. Aliás, tenho muito mais, mas não vou ficar torrando a paciência com a minha filosofia de conversa de boteco. E me desculpe por ficar falando nisso, também essa overdose de "corno-music", sambanejo e o monte de "eu te amo" que tenho ouvido em músicas andam me deixando meio maluco! E como diria o Joelmir Beting, agora vai uma frase pra pensar em qualquer lugar: é mesmo impossível ser feliz sozinho?

Alexandre Henry

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