Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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7 de Fevereiro de 1996 Alexandre Henry

A velha caixinha esquecida

Há alguns dias, eu estava quieto em casa quando me lembrei da minha velha caixa de madeira. Certa vez, eu quis um lugar para guardar coisas só minhas e a paixão pela caixa foi à primeira vista. Desde esse dia, eu comecei a colocar lá tudo o que já teve algum significado para mim, não importando se foi bom ou ruim.

Pois quando eu me deparei com ela novamente, esquecida há mais de um ano, passei várias horas revirando e remexendo em todos aqueles papéis amassados, pedaços de jornal, um bilhete que alguém escreveu sei lá por que motivo, uma antiga medalhinha, objetos que para qualquer outra pessoa teriam pouca importância. Mas para mim não, toda aquela velharia é parte do que vivi algum dia, são lembranças de momentos diferentes, de pessoas das quais já não tenho mais notícias. Recordei vários amigos, cartas antigas de paixões passageiras, essas coisas. Achei super legal ver como eram as namoradas quando nos conhecemos, percebi, por exemplo, detalhes que não conhecia.

Essa certa nostalgia que me bateu mostrou a importância de não jogar fora as besteiras (que nada!) do dia a dia, quando a gente está ocupado brincando de viver. Muitas vezes vão pro lixo objetos valiosos, não no presente, é claro, mas no futuro. Imagine se a Mariana, que escreveu o livro "Confissões de Adolescente", tivesse jogado a velha agenda, cheia de bobagens e coisinhas de menina, bem num saco de lixo? Cadê o livro, a peça nota dez, a série de TV? Cadê a memória? Nada disso, não tem que jogar fora coisa nenhuma! Nem mesmo aquele bilhetinho idiota que você escreveu e que nunca mais, em sã consciência, teria coragem de escrever qualquer coisa semelhante novamente, nem mesmo a carta da ex ou do ex, que não foi muito fiel e acabou com tudo nos braços de outra pessoa, nem mesmo isso merece ir embora para sempre. Sério! Até carta de inimigo vale! É bom pra você lembrar que um dia não gostou muito de alguém, pra lembrar também o motivo da encrenca.

Agora, atire a primeira pedra, mas bem de cheio, quem não passou por essa situação, extremamente desagradável e muito rotineira, da nova paixão querer meter fogo em tudo quanto é carta de ex-namorada ou ex-namorado. E as fotos? Tem gente que não perdoa nenhuma, vai lá, abre a gaveta do outro e cata tudo, rasga na frente da pessoa e joga fora no lixo, sem dó nenhum. Pior, tem gente que arma o maior rebu, ameaça terminar com o relaciona-mento, se não forem jogadas fora as cartas e fotos de namoros antigos. Como diria a mulher da novela das oito, STOP! Pelo amor de Deus! Se você faz isso no seu namoro, bote a mão na consciência e tome uma atitude mais adulta, ou vai brotar na sua consciência um belo par de chifres, justamente com aquele namorado antigo que você queimou a foto dele (vale pras mocinhas também). E se o seu ou a sua atual insiste que você se desfaça de tudo, desfaça-se dessa companhia pentelha e enxerida! Quem gosta mesmo sabe respeitar o passado do outro, não fica tentando destruir tudo o que a pessoa viveu antes. Quando o relacionamento começa desse jei-to é porque já começou errado e não vai dar certo. De que adianta queimar cartas e rasgar fotos? Não vai apagar o mais impor-tante, que é a memória. Pior, depois da pessoa não ter mais as cartas para recordar o passado, ela pode procurar outras formas de recordação, e aí... ah, meu caro, a vaca foi pro brejo e muito bem acompanhada!

É isso o que eu tenho pra dizer. É claro, também não é legal guardar um monte de velharias e ficar chorando o passado todos os dias ao rever aquilo tudo. O gostoso é relembrar, não é querer reviver. Se a carta, ou qualquer coisa que seja, é recente e ainda faz doer, deixe-a guardada lá no fundo e procure esquecê-la. Um dia, já bem curado e em outros embalos, você vai ficar feliz em recordar tudo aquilo, lembrar como conseguiu superar as dificuldades.

Arrume uma caixinha pra você também, se é que você já não tem uma. A minha é bem feiazinha, eu confesso, mas isso é o que menos importa. Vale mesmo é o conteúdo! Quem sabe, lá na frente, muitos anos depois, você não faça como a Mariana, ou seja, reescreva a sua própria história?! Já dizia a antiga música: "Recordar é viver..." Lembre-se disso!

Alexandre Henry

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