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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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8 de Julho de 2015 Alexandre Henry

A incoerência que condena

Acima de tudo, mostre coerência. Se há algo que traz respeito a uma pessoa é defender valores de forma sincera e sem dubiedades, por mais que os outros não concordem com aqueles valores. É defender um caminho e não tomar outro. É propagar uma ideia em público e, em particular, continuar abraçado à mesma ideia. É dizer que uma ação é ruim e efetivamente evitar praticá-la.

Eu não tenho boa estima pelos incoerentes, pois a incoerência diz para mim que a pessoa não defende uma ideia por acreditar nela, mas por achá-la mais conveniente para si. E a conveniência, como sabemos, é tão rígida quanto a superfície de um lago: ao menor dos ventos, tudo muda de forma. Há muitas incoerências que me incomodam. Um elogio à educação dos europeus e daqui a pouco uma latinha de cerveja voa do carro. A defesa dos fracos e oprimidos, desde que o “defensor” esteja no comando deles. Os rigores da lei para essa bandidagem, mas que o policial “não venha me encher o saco por eu ter estacionado na vaga dos idosos”. A liberdade da mulher em relação ao próprio corpo, exceto para essas “vagabundas que ficam usando roupas provocantes na frente do meu marido”. O direito dos gays, mas “que meu filho não esteja entre eles”. Um trânsito mais seguro, exceto para controlar a velocidade do meu carro por meio de radares. Uma conduta ética como vitrine, desde que não me cobrem pelos deslizes que meus antecessores também cometeram. Um ar mais puro para respirar, sem me impedir de exibir minha camionete de duas toneladas. O respeito ao ciclista, mas que se dane o pedestre. A imagem de piedoso nas redes sociais, sem qualquer ato de compaixão na vida real.

A incoerência torna a pessoa menos séria, menos admirável. Em muitos casos, ela vem de braços dados com a hipocrisia – se é que dá para separar as duas coisas. Claro, eu sei que as pessoas podem mudar de ideia ao longo da vida, até porque quem nunca muda não é digno de muita credibilidade, já que ser flexível é demonstrar capacidade de se adaptar à realidade que surge a cada dia. Mas, a mudança aceitável é aquela que vem com o tempo, de forma completa e honesta, admitindo-se o equívoco do que anteriormente se defendia, ainda que esse equívoco seja apenas porque a defesa não cabe mais nos novos tempos. Diverso é levar uma existência como um pêndulo, ora cá, ora lá, de segundo em segundo. Das duas, uma: ou a pessoa não consegue formar uma opinião própria ou a opinião própria que tem é a de que o melhor é sempre aquilo que for mais conveniente para si e seus interesses naquele momento. Enfim, não gosto dos incoerentes e, a eles, prefiro o adversário do qual discordo, mas que ao menos apresenta suas ideias de forma clara, honesta e coerente.

Alexandre Henry

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