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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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10 de Fevereiro de 2016 Alexandre Henry

A felicidade do outro

A felicidade é um estado de espírito e depende muito mais do interior da pessoa do que das condições que a cercam. A maior prova disso é o fato de muita gente que vive praticamente na miséria e na desgraça conseguir ser feliz. Tem gente que tem tudo para ser feliz e não é, ao mesmo tempo em que tem gente que tem tudo para se suicidar e acorda todos os dias cantando e sorrindo.

Outro fato a considerar: o mundo precisa de gente feliz. É questão de pacificação social. Quem está feliz geralmente não provoca tragédias, não rega a semente da discórdia e, economicamente falando, ainda produz mais. Um mundo de gente feliz é um mundo melhor para se viver - se alguém discordar disso, provavelmente será por ter algum problema emocional muito sério.

Certo. Agora, vamos juntar as duas coisas: se a felicidade é muito mais uma questão interna de cada pessoa e se o mundo se torna um lugar muito melhor para viver na medida em que há mais pessoas felizes, não há qualquer lógica em alguém criticar o outro por aquele encontrar a felicidade em algo que, para o crítico, não seria motivo de felicidade. Vamos aos exemplos, para clarear. Tem gente que endeusa cachorro, que parece tirar felicidade de atitudes bobas de um animal irracional. E daí? Se a pessoa se sente feliz com um cachorro, melhor para ela, melhor para o cachorro e, no final das contas, melhor para todo mundo. Mais: tem gente que é feliz dançando funk, ouvindo sertanejo universitário, cultivando uma barriga de cerveja, passando feriados prolongados vendo filme em casa, dormindo doze horas por dia, experimentando e comentando um monte de vinhos, postando fotos de trilhas de bicicleta o tempo todo etc. Do outro lado, sempre há alguém que não vê a menor graça em alguma dessas atividades e não entende como alguém consegue ser feliz com aquilo. Mas, novamente: e daí? A felicidade não é um estado de espírito, não é algo interno de cada um? Aí, você pode até contra-argumentar: "Mas essa pessoa não está sendo realmente feliz, ela está se iludindo. Ela acha que é feliz, mas não é". Ora, mas não chegamos à conclusão que a felicidade é um arranjo interno de cada pessoa? Se é assim, a ilusão de ser feliz não produz os mesmos efeitos do que a felicidade sem ilusões? No final das contas, o que vale não é o que você acha que a realidade é e não o que a realidade realmente é?

Acho que já escrevi sobre esse tema aqui, mas reflito tanto sobre ele que acabo voltando ao assunto. Incomoda-me o fato de tanta gente se incomodar com a felicidade alheia. O mundo precisa de gente feliz e o melhor que cada um faz é deixar o outro ser feliz da forma que ele quiser, ainda que você ache que aquilo não é felicidade, mas uma ilusão.

Alexandre Henry

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