O limite da discordância

Ainda menino, escutei repetidas vezes, de diversas pessoas, a advertência que não se discutem futebol, política e religião. Nunca me explicaram o motivo, mas entendi ao longo do tempo que a advertência provavelmente era motivada pelo fato de que esses assuntos são tomados por uma embriaguez de sentimentos que obscurece a razão, fazendo com que um interlocutor não consiga convencer o outro.

Pode ser, mas os três temas estão efetivamente entre os mais discutidos. No mundo do futebol, não vejo tanto problema, especialmente porque a maioria das conversas se dá no campo da brincadeira. Quanto à religião, a questão é problemática e o brasileiro tem a sorte de viver em um país no qual, apesar de existir intolerância religiosa, ela não é tão comum e não faz parte da nossa cultura. Já a política... Ah, a política! O que dizer dela nestes dias em que as águas de março vão fechando o verão? O brasileiro mergulhou de cabeça em discussões sobre a condução do país e o caminho parece não ter volta, com o acirramento dos debates e a elevação do tom da voz, inclusive no sentido literal da palavra. É difícil fazer cara de paisagem diante do que está acontecendo. Mesmo aqueles que sempre se recusaram a falar sobre política estão começando a dizer alguma coisa, pois o momento é tão peculiar que não sobra espaço para o silêncio ou para equilíbrios acrobáticos em cima de um muro imaginário, pois há um verdadeiro terremoto a não apenas derrubar quem está no muro, mas a derrubar os próprios muros. Eu, que nunca tive o silêncio e a retenção de opiniões como marca indelével da minha personalidade, vira e mexe acabo soltando minhas opiniões entre amigos e nas redes sociais. E olha que sempre me considerei um moderado, ora à esquerda, ora à direita, conforme a idade e a sanidade mental.

Impossível, pois, deixar de debater o tema quando não se fala em outra coisa, mas é aqui que me vem uma discreta luz da razão a dizer: cuidado, pois até para discordar há um limite!

Sim, há um limite para a discordância. Esse governo vai passar, essa oposição vai passar e nós continuaremos aqui. Talvez nossos filhos ou nossos netos, para ser mais realista, cultivando cada geração seus próprios debates políticos. O que importa é termos uma consciência de que, ao contrário da frase repetidamente me dita desde a infância, política se discute sim, só que ela realmente traz as marcas da paixão que limitam o raciocínio lógico. Conclusão? Chega um momento em que você simplesmente deve parar de tentar convencer o outro para que, ao sabor de uma cerveja gelada ou de um vinho maduro, vocês possam enxergar vida além das divergências políticas. Isso é bom, acredite em mim.

Alexandre Henry

ALVES, Alexandre Henry. O limite da discordância. Disponível em <http://dedodeprosa.com/conteudo/mododever/o-limite-da-discordancia/>. Acesso em: 18/09/2021