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20 de Outubro de 2007 Alexandre Henry Alves

O virgem

Fabinho era filho único. Mas não desses filhos únicos quaisquer que todo mundo vê por aí, não, porque ele era muito mais único do que filho. Às vezes se lembrava que tinha mãe, já o pai costumava aparecer pouco nos seus pensamentos. Viviam pra lá, como ele mesmo dizia, cuidando de coisas que nunca entendeu e nem nunca quis entender. Seu nascimento, como a finada avó mesmo dizia, a avó tão querida que talvez fora a sua única companhia nessa vida, tinha sido uma conseqüência e não causa. Aconteceu e pronto, fazer o quê? Ah, e como sentia saudades da avó! Ela sim, morava no seu coração. O resto não, esses ele nem ligava, não queria saber de guardar gente desnaturada num lugar tão importante de si mesmo. Mas a Dona Izilda, a velhinha que escondia no fundo da terceira gaveta do seu guarda-roupas, perto da penteadeira, uma caixa cheia de fotos em preto e branco tudo amareladas, ela cuidava bem dele, tanto que passara a maior parte da sua infância na casa da avó, fazendo companhia para ela enquanto a velhinha ficava mordendo nada, sentada no sofá.

"Será onde ela está agora?" - costumava pensar, depois que a Dona Izilda morreu. Nunca mais ousara ligar a televisão à tarde, na hora do filme, porque aquilo lhe fazia lembrar da avó e ele não queria se lembrar dela, porque ficava triste. Só de vez em quando, assim naqueles momentos em que não havia modo de fugir da solidão, então ele se punha a lembrar da avó remexendo na caixa e lhe contando as histórias da mocidade. Coitada dela, nunca entendera por que Deus lhe tirara o marido tão cedo, logo quando ela viu que realmente o amava de verdade. "Meu filho, essa vida é esquisita, muito esquisita. Quando a gente percebe a importância de uma pessoa, aí já não há mais de tempo de mostrar isso pra ela. É uma amargura, a gente passa o resto da vida esperando o momento de ser chamado para, quem sabe, num outro lugar poder dizer a essa pessoa que ela foi tudo na vida da gente. Sabe, Fabinho, deixa a vovó te contar uma coisa: se um dia você gostar de alguém, fala pra ela, tá? Porque depois essa pessoa vai embora e você nunca mais vai poder dizer que gosta de ficar ao lado dela, mesmo que seja só pra ficar calado e fingindo que olha para os lados, quando quer mesmo é olhar pra ela. Faz isso, tá Fabinho? A vovó sabe muita coisa, mas muita mesmo, porque eu aprendi tudo na marra, minha vida foi aprender coisas na marra, desde o dia em que nasci, passando pelo dia em que me casei, até o dia em que seu avô morreu por causa daquele coração besta que não deu conta do recado."

Mas o Fabinho nunca conseguira fazer o que a avó lhe dissera, mesmo guardando bem cada palavra. Quando estava no Jardim de Infância, estudava em uma escola perto da sua casa, numa casa bem aberta e cheia de varandas. Gostava da escola, adorar correr por aqueles corredores batendo a mão nas paredes e cantando uma musiquinha bem bonita que a Dona Izilda lhe ensinara. Aí, quando alguém o via, então parava e caminhava certinho, fingindo não ser ninguém para não ser olhado. Ah, escola! Tinha a Thays, a menina de cabelo cacheado, assim meio loiro, mais linda que ele já tinha visto. Carregava uma lancheira amarela e sempre trazia bolo de limão, um gosto muito esquisito que no começo ele detestou, mas depois nunca mais conseguiu passar uma semana sem comer um pedaço de bolo de limão. Ela era realmente bonita, se era. Certa vez, na festa junina lá da escola, a professora falara que os dois dançariam a quadrilha juntos, ele quase morreu do coração. Ficou tremendo e até pediu para ir ao banheiro. Depois, voltou, sentou-se na carteira e ficou quietinho, torcendo para que a professora realmente fizesse aquilo. Mas não deu certo, ela dançou com outro. Foi o fim do mundo, parecia o pior de todos os dias aquele da festa, ele lá, sem dançar com ninguém porque tinha emburrado, ela dançando com outro. Pra dizer a verdade até chorou, escondido atrás da barraca de pescaria, mas nunca contou isso para ninguém. Nesse dia a Thays se foi da sua vida, porque ele ficou muito triste e nunca mais se sentou perto dela. Lembrava-se do último dia de aula do ano, estava todo mundo em festa, correndo e indo até o escorregador que havia no fundo da casa. Ele ouviu a mesma professora se despedindo da Thays com um olhar triste, quase de choro. Correu e ficou atrás de uma coluna, onde ele escutou que ela iria morar em outra cidade.

Depois da Thays veio a Paula, uma menina muito esquisita, mas que ele gostava muito. Na verdade, houve algumas outras antes, o Fabinho sempre se apaixonava, sempre inventava romances na sua cabeça, mas a Paula não dava pra esquecer. "Menina louca!" - pensava ele, enquanto se ria sozinho lembrando de alguma besteira dela. Um dia, ora só, apareceu lá na sala de aula com o nariz todo vermelho e a testa inchada. Tinha entrado numa briga para salvar a colega e bateu em três meninos. Depois apanhou muito, é claro, quase apanhou de pau, ainda bem que o seu pai chegou na hora e botou todo mundo pra correr.

O Fabinho se admirava com essa história, ficou de fora da roda só ouvindo a Paula contar do moleque que enfiara o nariz no chão correndo dela, como se fosse gato correndo de cachorro. É, ele estava na terceira série e um dia resolveu escrever uma carta pra ela. Pôs lá: "Paulinha, se você não me acha feio, então eu quero dizer pra você que eu te acho muito bonita. Mas não fica com raiva de mim não, tá? Eu acho, mas só acho e pronto. Assinado:" Tinha deixado em branco o lugar da assinatura. Não teria coragem de dizer que a carta era sua, depois ela ficaria com raiva e nunca mais iria querer conversar com ele na hora do recreio. Nos dias seguintes, ficou pensando uma coisa: como ela poderia saber se ele era feio ou não, se ela não sabia quem ele era, ou melhor, se ela não sabia quem era o dono da carta?

Gostou muito da Paula, mas aí um dia ele pegou o caderno dela e lá estavam escritas algumas coisas que o magoaram muito, porque ele descobriu que a Paula gostava do Ricardo. O Ricardo era um moleque besta, metido a jogar bola e que tinha uma caneleira novinha, que era pra não machucar a perna. "Coisa de mulherzinha" - pensava o Fabinho. Nunca se atreveu a falar nada do Ricardo e nem dos dois, ficou quieto, curtindo o romance impossível.

Mais tarde, depois de muitos romances impossíveis, ele conheceu a Raquel. Mesmo se morresse com mil anos ele ainda poderia descrever direitinho como era a Raquel: quase da sua altura, cabelos longos até a cintura, um rosto meio redondo mas não muito, uns olhos castanhos muito bonitos e brilhantes e uma mão macia, diferente de todas as outras. Foi num dia em que ele estava numa festa na casa do seu primo Henrique, filho da Tia Guilhermina. O Henrique colocou o seu som novo na garagem e tocando umas músicas lentas, que era pro povo dançar. Ficou cheia a casa, naquelas épocas todo mundo chamava aquilo de brincadeira, um nome bem esquisito para uma festa onde ninguém estava interessado em brincar.

Raquel! O Fabinho estava perto da porta da sala, ouvindo a música e pensando longe, numa distância que ninguém seria capaz nem de imaginar. Era um de seus prazeres, ficar imaginando-se como isso ou aquilo, sempre com um monte de gente o admirando e achando o máximo. Gostava muito de se imaginar um cantor, talvez o roqueiro bem bonito e com uma voz forte. Ele cantaria lá do palco, olhando a multidão aglomerada no estádio cantando junto com ele. Mas não seria um show comum, isso não, seria o maior show que o mundo já viu, porque ele pegaria uma guitarra e então todo mundo ficaria hipnotizado olhando pra ele. É, seria desse jeito.

A Raquel estava lá! Ele não a conhecia e ficou apaixonado logo que a viu. Foi um dos dias mais felizes da sua vida, porque pela primeira vez pode sentir um corpo de menina bem juntinho do seu, aquele calorzinho gostoso, o perfume doce e com cheiro de menina. Amou! No fundo, nunca teria coragem de chamá-la pra dançar, o seu primo Henrique é que colocou os dois juntos porque queria a sua festa animada e esse negócio de ficar todo mundo parado nos cantos acabava com qualquer festa.

Ele dançou três músicas com a Raquel, coladinhos, como se não quisesse nunca mais largar a menina de perfume doce. Na segunda música ele fechou os olhos, encostou o queixo no ombro dela e ficou quietinho, mergulhado naquela música tão bonita que ele gravou em três fitas, onze vezes. Estava com muito medo de errar o compasso, se pisasse no pé dela aí seria o fim e nunca mais conseguiria dançar com ela. Não pisou, pelo contrário, as coisas só melhoraram. Na terceira música, mais romântica ainda, ele, que não tinha coragem de dar um beijo em seus lábios cheios de batom, começou a passar a mão lentamente por suas costas, subindo mais devagarinho ainda, até chegar na nuca, embaixo dos cabelos. A nuca estava quente, era de uma pele macia e tinha uns pelinhos fininhos que quase não faziam sentir a sua pele. Daí... ela também passou a mão na sua nuca! Aquilo foi um sonho, uma verdadeira noite de sonhos inesquecíveis, que duraram três músicas e um amor platônico. O ruim foi o Henrique ter cismado que seria hora de colocar uma música mais animada para agitar o povo, bem na hora em que ele quase havia decidido perguntar o nome dela. Aquele momento foi ruim, quando se soltou do corpo quente dela, que quase já fazia parte do seu. Pensou em perguntar o nome naquela hora, mas não saiu nada. Ela se foi, de cabeça baixa e mexendo no cabelo, pra ficar quieta num canto junto com duas amigas. O Fabinho rezou, pediu e implorou para o seu primo colocar música lenta de novo, mas quando pôs já era tarde demais, a Raquel tinha ido embora. Quis morrer, quis se suicidar, ficou a noite inteira pensando e sonhando com ela, com o coração apertado e uma vontade de sair pelo mundo atrás da Raquel. Dormiu na casa do primo, ela era vizinha e morava no outro quarteirão, mas no domingo não conseguiu vê-la. Nem no outro e nem no outro. Passou a freqüentar a casa do Henrique como nunca fizera antes, mas poucas vezes viu a Raquel. Certa vez, quando ele e o primo passavam na frente da casa dela, sempre passavam, a Raquel estava ajudando o pai a lavar o carro. Com o coração disparado, ainda acenou pra ela, mas não teve coragem de chegar lá, tinha medo do pai e vergonha de sei lá o quê.

A Raquel também morreu. Não que tenha se ido dessa vida, isso não, mas ela acabou arrumando um namorado e ficou com ele muito tempo, para o espanto do Fabinho, que imaginava o pai dela um sujeito muito bravo e possessivo com a filha. Que nada, ficou sabendo que a menina, de catorze anos, até viajara com o namorado e a família dele. Quase morreu do coração, mas depois foi ela que morreu do seu coração. Raquel! O seu amor platônico! Custou para esquecê-la, só conseguiu lá pelos dezesseis, foi muito duro.

O Fabinho era desses que desafiam o tempo, porque lá na sala de primeiro colegial, depois na de segundo e em todo o resto, ele sempre sendo a mesma pessoa da escola com escorregador no fundo. Ficava quieto, prestava atenção às aulas, às vezes nem prestava, ficava pensando num monte de coisas e olhando a Mariana lá na frente. Escreveu uns dois livros na cabeça, uns quinze filmes e mais tudo aquilo que tivesse ele e a Mariana como personagens principais. Nessa época também surgiu um grande problema para o Fabinho, sempre tão ausente em qualquer coisa que se referisse a mais de uma pessoa. Foi chato e nunca mais saiu da sua cabeça o dia em que toda a sala estava reunida lá no terceiro andar, onde havia um vídeo e uma TV, quando na tela apareceu um rapaz homossexual.

- Fabinho... - disse alguém lá do fundo.

Todo mundo riu, menos ele. Pra dizer a verdade, nunca, mas nunca mesmo, havia pensado nesse negócio de bicha, de gay ou qualquer outra coisa que não tivesse um homem e uma mulher. Porque antes de tudo ele era um apaixonado por mulheres, sabia disso desde que conhecera a Thays lá no Jardim de Infância, com aquela lancheira amarela delicada. "Veado?" - perguntou-se quando ouviu aquilo. No começo não ficou preocupado, ele era ele e pronto, ninguém tinha nada a ver com aquilo. Se até tivesse uma queda ou algo parecido, talvez teria sentido alguma coisa, só que isso nunca acontecera. Certa vez, ele estava lá na casa do Henrique, há muito tempo, e mais dois outros primos estavam lá. De repente surgiu um assunto assim de ver quem era homem, quem fazia isso com o outro, quem tinha coragem de abaixar as calças, essas coisas, mas ele não gostou e saiu de perto. Depois, quando voltou pra chamar todo mundo pra almoçar, viu o Henrique de calças abaixadas atrás do outro primo. Não disse nada, não sentiu nada, apenas virou-se de costas e foi se sentar à mesa como se nada tivesse acontecido. Em outra vez também, lá pela terceira série, começou uma brincadeira sem graça na escola de passarem a mão na bunda dos outros, mas ninguém se atreveu a encostar nele, porque o Fabinho era tão sério e fechado que todo mundo tinha medo dele, se não tinha medo pelo menos não ligava pra ele, deixava pra lá.

- Frufru!

Pela primeira vez ele chorou de raiva daquele moleque idiota que botou o apelido nele, dando a entender que o Fabinho era bicha. Como? Não era não, tinha certeza disso! Poucas vezes achava um homem bonito, isso acontecia, é claro, mas não passava de achar bonito, porque vontade de chegar perto ele não tinha. Nunca foi de sentir prazer ao pensar em homem, então não entendia o motivo do apelido. Só porque ele era quieto tinham que implicar? Só porque nunca tinha ficado com menina nenhuma e nunca tinha dado um beijo? Ele teria isso quando quisesse, não precisava provar nada pra ninguém.

Um dia o Fabinho perdeu os sentidos. Foi no final de setembro, no segundo colegial, era quase época de provas e ele estava quieto no pátio da escola, perto do cesto de lixo. Pensava em qualquer coisa, quando a Mariana chegou pra conversar. Ele tremia tanto, mas tanto, que ela deve ter desconfiado. Era um prazer! A Mariana, a menina bonita da sala, que só usava rabo de cavalo, que escrevia umas coisas muito bonitas no caderno dela, conversando com ele...

- Você sabe a matéria de biologia?

- É... sei sim.

- Ah, eu estou ruim em biologia...

Iria falar que a ajudaria, quando, como e onde ela quisesse, por milhares de anos ou por um só segundo, mas sua voz foi abafada por outra:

- E aí, Fabinho, o Marcos falou que está te esperando lá na biblioteca. Ele disse que tá com ciúme!

Era o moleque otário de novo, todo mundo da roda riu do Fabinho. "É inveja, é inveja!" Mas quando o chamaram de bicha na frente da Mariana, ela de olhos abaixados meio sem graça, então ele não se conteve. Nunca fora de fazer nada a ninguém, não gostava de violência, porque afinal de contas era um apaixonado por mulheres e apaixonados por mulheres não são violentos, são românticos. Só que nesse hora ele não deu conta de se segurar. Deixou a Mariana lá e partiu para cima do moleque, numa violência tão grande que sangue voou com o primeiro murro e logo estavam rolando pelo pátio, no meio de uma roda aberta e de um monte de gente que chegava para ver o que estava acontecendo. Ele iria matar o moleque, iria sim! Nem tanto pelo veado, mas por xingá-lo na frente da Mariana, a menina linda da sala que usava rabo de cavalo e tinha um sorriso delicado. Quebrou o braço do moleque, quebrou o nariz dele, bateu nos outros dois que entraram na briga e ganhou quinze dias de suspensão. Não ligou, não precisava de notas mesmo e em casa não teria problemas, porque nunca ligavam pra ele. Se a avó estivesse viva, talvez sentisse um pouco de vergonha, mas ela também entenderia. E foi uma pena, porque não pode explicar a matéria pra Mariana e ela nunca mais veio conversar com ele, ficava apenas olhando de longe, num olhar que o Fabinho nunca entendeu.

Um dia, estava no segundo colegial ainda, contaram-lhe uma coisa:

- Acho que a Mariana está gostando de você...

Escreveu uma carta pra ela, a mais bonita de todas. Gostava de escrever, era um apaixonado pelas letras e fez o melhor de si naquelas duas páginas decoradas com uns desenhos bonitos e românticos. Pensou até em dizer que a amava, mas decidiu deixar pra outra oportunidade. Demorou muito a decidir por entregar a carta, no final colocou apenas as iniciais, ela saberia quem era o autor. Resolveu deixá-la em cima da carteira na hora do recreio, nunca teria coragem de entregar pessoalmente.

A semana seguinte foi a mais feliz da sua vida, porque ele ficou muito tempo com a Mariana. Estudaram juntos, foram ao cinema juntos, andaram pela escola juntos, de mãos dadas. Estava apaixonado, talvez ela estivesse também. No último dia de aula, convidou-a para dar uma volta pela quadra, queria falar algumas coisas. Falou, não todas que desejava, mas falou. E no final, já na hora de ir embora, pegou nas suas duas mãos, calou-se por uns instantes e olhou nos olhos dela:

- Mariana, eu queria...

Lentamente, ela chegou seu rosto pertinho, tinha o cabelo preso, tocou nos seus lábios. Com as pernas tremendo, o Fabinho abraçou-a de uma forma como ainda não tinha feito naqueles dias em que foram muito mais amigos do que qualquer outra coisa, porque agora ele a sentia mesmo. Desde esse dia do beijo ele mudou, tornou-se outra pessoa, até parou de comer direito, como sempre fazia. Na hora do almoço, quando ia comer a tal macarronada que era o seu prato preferido, às vezes chegava o garfo perto da boca, lembrava-se da Mariana e então ia fazer outra coisa, escrever, ficar deitado na cama pensando nela, qualquer coisa. Queria que aquelas férias sem graça passassem logo para vê-la novamente, para saber como tinham sido as suas férias no litoral, se tinha passeado muito, como estava o mar. Ah, ele adorava o mar! Achava tão bonito aquele azulzão, lá longe um nada muito maior do que qualquer pessoa, quase do tamanho do seu sentimento. É, só o mar inteirinho seria capaz de fazer frente ao tamanho dos seus sentimentos pela Mariana.

Pensou numa forma de recepcioná-la, iria escrever um cartão lindo, levaria flores, diria que estavam lindas combinando com o bronzeado rosa da praia. Iria fazer uma serenata, tinha um violão, estava aprendendo umas músicas, iria sim.

A Mariana voltou, trazendo uma cor muito bonita, um sorriso mais bonito ainda, o cabelo sempre preso, a miniblusa colada no corpo chamando a atenção de quem passava perto, uma distância. Estava distante, o Fabinho percebeu. No primeiro dia de aula, ela se sentou lá na frente e ficou calada, sem conseguir olhar para ele. Não entendeu aquilo, pareciam namorados depois daquele beijo lá da quadra da escola, como é que ela nem fora conversar com ele agora? Ficou com medo de alguma coisa, o coração apertou-se e a garganta travou. No terceiro dia, com o cartão amarelando no meio das páginas do caderno de doze matérias, ele criou coragem e foi conversar com ela.

- Fabinho, desculpa, tá?

Foram só três palavras, nada mais. Depois, entendeu tudo, assim como entendeu que o mundo é muito pequeno, porque na mesma praia estavam a Mariana e um cara da outra sala e os dois foram separados mas voltaram juntos. Estavam namorando. Dessa vez a mãe até se preocupou, porque o Fabinho teve uma febre esquisita e perdeu as duas primeiras semanas de aula. Estava estranho, os médicos ficaram encucados com aquela febre que nunca passava, mas era porque eles não conheciam uma febre chamada Mariana, muito rara e bastante devastadora. E também foi dessa vez que viu a mãe chorando por ele pela primeira vez, apesar de não ter dito que as lágrimas tinham como causa o filho.

Mas o Fabinho ouviu a conversa no consultório, doeu muito por pensarem aquilo dele, preferia não ter ouvido.

- É, ele nunca teve namorada, doutor...

Na família rolava um boato igual ao que motivou a briga na escola. Se pelo menos a avó Izilda estivesse viva, diria que tudo era mentira, porque não havia nesse mundo alguém tão puro de sentimentos como o Fabinho e tão perfeito na sua capacidade de amar e de admirar uma mulher. A avó conhecia o Fabinho, mais do que ninguém, porque ele ficava na casa dela quase toda tarde, assistindo filme enquanto ela conversava um monte de coisas sobre o seu avô, que ele nem conhecera.

- E aquela história que a senhora me contou, é verdade?

- Não sei, doutor, não sei! Foi a irmã do meu marido que veio com essa história, mas eu juro que nunca vi nada e também não fiquei sabendo de nada. Será possível, meu Deus? Será possível? Ele sempre teve aquele jeito carinhoso, delicado, mas daí a pensar isso...

- Acho melhor a gente fazer o teste.

- Mas por quê?

- Olha, minha senhora, só por segurança. Eu perguntei a todos os meus amigos, gente formada nessa área nas melhores faculdades e ninguém conseguiu me explicar o porquê dessa febre esquisita. E os outros exames mostraram que ele não tem nada, não tem hepatite, pneumonia, nada. Então...

- Se for, ai meu Deus... o pai dele mata!

Foi lá fazer mais um exame, ficou vendo o seu sangue sair por aquele tubinho enquanto a enfermeira olhava desconfiada. Estava calmo, sabia o motivo de estar fazendo mais um exame, mas não tinha medo de nada, nem do resultado. Doença de coração médico nenhum poderia curar, nem exame mostraria.

A dor de paixão percorreu rapidamente todos aqueles dias do ano, sentada na carteira perto da mesinha do professor, prestando atenção na aula. Depois, veio o final de ano. O Fabinho passou no vestibular, iria fazer Administração. Conselho do pai, era para aprender a cuidar da empresa quando tivesse idade. O Fabinho não ligou pra festa do vestibular, não ligou nem quando rasparam o seu cabelo e jogaram ovo fedido na sua cabeça, lá na casa da mãe do Henrique. Na verdade ficaram com inveja dele, porque o Henrique não tinha passado, e os boatos só pioraram. Não ligava, nunca ligava pra essas coisas. Sabia o que era e pronto, se alguém duvidasse o problema era desse alguém. A única coisa que mexeu com ele durante essa época de vestibular foi ver na lista de aprovados que a Mariana não havia passado. Mesmo com a distância um do outro, nunca mais caminharam pela escola falando de coisas de amor, queria muito que ela tivesse passado, pelo menos poderiam se cruzar pelo campus da universidade de vez em quando. Tudo bem, ela ainda estava namorando, mas só de olhar para ela já se sentia melhor um pouco e a febre se acalmava.

Faculdade... O Fabinho nunca ligou pr’aquilo. Passaria em qualquer vestibular, seria aprovado em qualquer curso e teria o diploma que fosse preciso. No seu caso, precisavam de um diploma de Administração ou Direito, todo mundo da família precisava. Não queriam alguém da família fazendo Psicologia, era coisa de mulher e eles não desejavam nenhum homem com o seu nome fazendo coisa de mulher. Se fosse mesmo efeminado, não tinha direito de ficar sujando o nome da família por aí. Administração, esse sim era um curso mais certo. Não que fosse só de homem, ninguém era machista na família, mas pelo menos era de homem e mulher.

O Fabinho não se interessava muito por aquelas coisas, no fundo não gostava da faculdade. As meninas mais bonitas ficaram no cursinho ou então foram fazer uma faculdade particular, mais fácil de passar. Ele até pensou nessa época que talvez beleza feminina fosse realmente impossível de conviver com inteligência, mas quando uma colega gorda da faculdade lhe falou que lá não havia homem bonito, então ele entendeu que não era coisa de mulher, era coisa de qualquer um. A Mariana... foi fazer Psicologia numa faculdade particular. Ele... viveu os anos de universidade solitário, apaixonado aqui e ali, sempre solitário.

No último ano de faculdade passou por uma crise violenta, quando fizeram uma brincadeira de mau gosto com ele. Não era nem uma brincadeira, mas ele não gostou.

- Fabinho, sábado eu e o Henrique vamos numa festa, você quer ir?

Não gostava muito de festas, preferia ficar em casa, mas o convite do seu tio ele não rejeitou, porque já estava enjoado do seu computador e porque a mãe pegava no seu pé. Então foi com os dois, só que não deu certo. Foram a uma casa de mulheres, lá perto da Vila Cristina, num lugar até bonito e improvável para uma casa daquelas, cheia de gente se vendendo. Porém, o Fabinho não fez nada, até sentiu vontade de pegar uma daquelas que desfilavam quase sem roupa à sua frente, rebolando e sentando no seu colo. Mas era estudado, tinha medo da AIDS e não havia passado ainda pela situação de colocar uma camisinha, porque nunca tivera motivo e oportunidade para isso. Também não queria uma qualquer comprada para se entregar assim da primeira vez, queria algo com amor e paixão, com romantismo. Não sentia qualquer pressa, tudo bem, estava com vinte e três anos, mas não via problema em nunca ter feito amor com uma mulher. "Amor, até parece..." - pensou, enquanto uma sentava no seu colo e passava a mão pelo seu corpo. "Será por que ninguém consegue me entender?"

Queria amor, um relacionamento sincero e apaixonado, não aquela coisa falsa. Chamaram-no de bicha, um monte de gente na família chorou, a sua mãe chorou pela segunda vez por ele, o seu pai falou que ele não assumiria a empresa, ele não ligou. Mesmo na faculdade, lugar onde não havia menina que lhe chamasse tanto a atenção quanto nas carteiras de colegial, tivera algumas paixões, gostava da menina da lanchonete, ela conversava muito com ele quando o Fabinho tomava café da manhã lá; contava das brigas do vizinho, da mulher que havia sido presa depois de agredir o marido. Adorava ouvi-la contando da vida como a vida realmente é, sem a frescura da sua família, aquela coisa de nome, de pose, de posse, de dinheiro. A Carla da lanchonete era simples, era sincera e gostava dele. Passou a ser o maior cliente da lanchonete, até o dono ficou o conhecendo e fizeram amizade, porque os dois tinham coisas que interessavam. A Carla! Menina legal, gente bacana e além de tudo bonita, talvez nem tanto quanto a Mariana, agora casada e com dois filhos e bem acabada, mas a sua beleza era sincera e não se escondia atrás de uma roupa bonita ou de um penteado mais elegante. Quando resolveu chamar a Carla para sair, até que foi feliz e conseguiu. Depois, ouviu que eram apenas bons amigos.

O caso da família foi ficando difícil, porque começou a ser visto com preconceito. "Besteira! O meu tio é que não sabe amar uma mulher de verdade, fica aí, sem saber que ela tem outro" - pensava, enquanto tomava o seu refrigerante sozinho na mesa do canto, na festa de fim de ano da mãe do Henrique, um ano depois de terminada a faculdade. Até o primo estava diferente, custava a conversar com ele. Nesse dia quem fez companhia pra ele muito tempo foi a Rita, a namorada e futura noiva do Henrique, que ficou impressionada com a sua delicadeza e o seu romantismo.

- Nossa, se eu ouvisse uma coisa dessas...

Disseram que o Henrique não precisava se preocupar, porque o Fabinho não era perigo diante da Rita. Maldade, isso não era verdade. O resto é que não sabia amar uma mulher como as mulheres merecem ser amadas, ele sempre fora sincero e nunca daria em cima da namorada do primo, porque achava traição a pior coisa do mundo, a única capaz de realmente machucar alguém. "Mas quando se ama não há traição" - sempre dizia.

Chegou aos vinte e sete sozinho. Ninguém sabia por que, nem ele. Aí um dia, depois de inúmeras e incontáveis paixões solitárias, encontrou uma pessoa no seu serviço, quando foi preencher a ficha de emprego dela.

- Seu nome...

- Thays Bonfiglio dos Santos.

Não acreditou. Era ela, a Thays! Queria um emprego na empresa do seu pai, estava precisando de trabalho! Conversaram muito, ela não se lembrava direito dele, ele falou da lancheira amarela e do bolo de limão, perguntou para onde ela havia se mudado naquela época do Jardim de Infância.

- Campo Grande.

Vinte e dois, quem sabe vinte e três anos de distância entre os dois! Ela começou a trabalhar na empresa, era secretária, logo virou gerente. Começaram a namorar, ele estava apaixonado, não, mentira, estava mais, estava amando! A Thays tinha vivido muita coisa, vários namorados, mas o Fabinho não se importava porque agora ela era dele. Resolveram se casar, depois de seis meses de namoro e três ascensões de cargo. O seu pai nem ligou, se fosse preciso ela seria diretora, gerente geral, tudo. Importava era saber que o filho não era efeminado, a família até se calou, ninguém mais se atrevia a dizer qualquer coisa, porque o Fabinho agora iria se casar com a Thays.

Uma semana antes do casamento, lembrou-se da avó. Sentiu saudades, gostaria que ela estivesse lá na igreja, faria questão de que ela o acompanhasse até o altar, com os olhos cheios de lágrimas por ver o neto realmente conquistando a sua felicidade. "Não se esqueça de dizer que você a ama, Fabinho" - certamente falaria a sua avó, enquanto caminhavam em direção ao altar, ele também chorando de emoção.

Pensou mil coisas, marcou a lua de mel para uma ilha grega, gostava de mitologia, queria passar a sua primeira vez naquele lugar marcado por deuses de todos os tipos, alguns românticos como ele, alguns apaixonados e outros grandes amantes. Comprou as passagens, reservou o hotel. Queria tudo especial, tudo do melhor porque era a sua Thays, a sua gerente, e ela merecia o melhor. Até quis se guardar só pra ela, ela teria essa honra na lua de mel, a honra de ser a sua primeira e única.

- Mas Fabinho...

A Thays insistira, provocara-o até o limite, mas ele resistira.

- Eu gosto de você, estou apaixonado, Thays. Entenda, por favor! Eu quero uma coisa pra gente se lembrar pro resto da vida.

Ela não entendeu, a sua primeira vez tinha sido muito ruim e não via nada de especial. O Fabinho via, tanto que fez até uma semana de mentalização com uma professora oriental e leu muita coisa a respeito do assunto. Na véspera, ficaram no carro conversando por muito tempo, ele contou da sua vida e outras coisas a seu respeito, ela disse que já era tarde. Foi pra casa, com certeza não dormiria naquela noite, a sua Thays estaria muito bonita no altar, a mais bonita de todas e dela ele cuidaria como ninguém nunca cuidou de outra pessoa nesse mundo. Chegaria com um botão de rosas todos os dias, ficaria acordado para contar histórias quando ela estivesse com insônia, convidaria a sua Thays para almoçarem no restaurante japonês nos aniversários de casamento, um ano e três meses, um ano e quatro meses... Não pensava em filhos, queria a Thays bonita por bastante tempo, ela também não queria filhos, estragava o corpo. Depois, lá pelos trinta e cinco, aí então teriam um ou dois filhos, queria uma menina que teria o mesmo nome da mãe.

Encostou-se na cama, o casamento em menos de vinte quatro horas não o deixava dormir. "Fabinho, às vezes a gente só descobre o quanto uma pessoa é importante quando já é tarde... Diga que a ama, diga sempre!" Ficou lembrando as palavras da avó, levantou-se e vestiu sua roupa. Iria lá na casa da Thays, diria a ela que a amava, porque o tempo todo guardara essas palavras, mas a avó lhe diria para dizer logo, se estivesse viva. Pegou o carro e saiu acelerado, não sem passar na floricultura 24 horas e comprar uma orquídea para a noiva.

Tremendo, parou na esquina da casa dela, o farol estava fechado. De longe, viu um carro parado na porta da casa da sua Thays.

- Henrique?

Pensou em uma brincadeira, uma surpresa qualquer para ele, afinal de contas toda a família estava feliz por não ter um efeminado carregando o seu nome. Resolveu esperar, não queria chegar lá e desarmar a surpresa, era melhor esperar o Henrique ir embora. E a curiosidade foi forte quando a Thays entrou no carro do primo, tanta curiosidade que ele foi atrás. Depois, chorou muito. Voltou pra casa em soluços, entrou no quarto e só acordou quando alguém o chamou já no meio do dia seguinte, para que ele se aprontasse pro casamento. Calado, os olhos um pouco vermelhos ainda, passou a tarde sério, pensando na noite anterior. Quando chegou à porta da igreja, seus passos eram como o ponteiro do relógio, exatos. Esperou o atraso da noiva, ela chegou vinte minutos depois, o cabelo solto, um sorriso na cara, entrou na igreja. Ele já estava ao lado do altar. Encontraram-se no meio do caminho, ajoelharam-se e ouviram as palavras do padre. Ele estava calado, ninguém via um sorriso. Quando o padre lhe perguntou, pegou delicadamente na mão da noiva e a levantou, para o espanto de todos. Era um romântico, faria algo de diferente no dia do seu casamento.

Silêncio.

- Deus há de me perdoar, o Seu filho também perdoou uma traição...

Olhou para o primo, ele estava ao lado da sua mãe, que pela terceira vez chorava pelo filho. Olhou para a noiva, ela estava séria, ninguém se atrevia a falar qualquer coisa.

- Ontem eu tentei dormir, mas não consegui. Quando a gente vive para uma coisa, para ser de um jeito, a vida é ao mesmo tempo mais bela e mais perigosa. Eu... eu não tenho muita coisa a dizer...

Lembrou-se da Mariana, ela estava lá com a filha no colo, na terceiro banco do fundo. E ele ainda foi delicado, pegou uma rosa no altar e a entregou suavemente para a noiva de cabelos soltos. Deixou uma lágrima escorrer-lhe pelos olhos, olhou novamente para a Mariana, ela tinha o outro filho ao seu lado...

- Ninguém vai me entender, porque ninguém é igual a mim. Eu suportei muita coisa nessa vida por querer ser de um jeito diferente, um jeito sincero, mas agora não dá mais.

Olhou para o primo, o Henrique entendeu tudo e apenas abaixou a cabeça. A Thays também entendeu, mais ninguém. Depois, ele ainda disse algumas coisas, a família ficou de boca aberta com o escândalo, era o fim do nome, sujado para sempre, todo mundo cobriu de olhares incrédulos a noiva parada no altar. Mas o Fabinho não foi indelicado, nunca seria indelicado com uma mulher.

- Thays, desculpe-me por te fazer carregar esse momento para sempre na sua vida. Agora, se você me dá licença, eu preciso ir. Não há um ser humano nesse mundo capaz de ser feliz sozinho, e viver sozinho é a minha condenação. Por isso, desculpe-me mais uma vez, eu não posso ficar aqui.

Caminhou lentamente pela igreja, sob o espanto e o olhar silencioso de todo mundo, até chegar ao final do tapete vermelho, perto do banco onde estava a Mariana com seus dois filhos. Lá, ele tirou um revólver do terno, olhou para as duas crianças da sua ex-colega de sala, lembrou-se de qualquer coisa, talvez do primeiro beijo, e se suicidou. Caiu longe da sua Thays, de costas para o altar. Ele era delicado e romântico, não queria ver o vestido tão lindo de sua noiva, tão branco e puro, sujo com o sangue que lhe escorria pela cabeça.

Alexandre Henry Alves - Escritor

Comentários

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