Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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16 de Setembro de 2015 Alexandre Henry

Quando envelheci

Quando foi que você amadureceu? Em que momento da sua vida você percebeu que não era mais uma criança e que o mundo adulto tinha chegado, com todas as suas obrigações, assuntos sérios e decisões diárias? Ou isso ainda não aconteceu?

Li um texto interessante da Tati Bernardi sobre o tema outro dia. Ela está escrevendo um roteiro sobre "um grupo de amigos que perdeu o trem para a vida adulta. Eles já têm quase 40 anos e nada. Trabalho chato, nem pensar; comprometimento é a coisa mais careta que existe; respeitar as regras pra viver em sociedade, nem a pau; pagar contas é coisa de velho que desistiu de lutar". Acontece, confessa Tati, que ela ainda não se sente adulta e, talvez por isso, ficou travada na confecção do roteiro, no momento em que os personagens teriam que amadurecer. Diz a escritora: "Se eu sinto dor de barriga e quero correr pra casa da minha mãe pelo menos umas quatro vezes por semana, como escrever com propriedade sobre esse grande momento da virada, esse segundo retumbante e resplandecente em que finalmente partimos para um mundo onde sentiremos menos medos e mais músculos, menos dúvidas e gotas de Rivotril e mais aplausos e firmeza na voz?"

Ao contrário da Tati Bernardi, eu já passei por esse momento da virada. Talvez ele tenha começado aos meus sete anos, quando minha mãe faleceu. Mas, concretizou-se mesmo lá na frente. Aos 19 anos, virei funcionário público em um órgão absolutamente "careta", a Receita Federal. Teimoso, estudante de Comunicação Social, recusei-me a tornar adulto definitivamente. Montei uma banda de rock, escrevi um livro e fiz um mochilão pela Europa sozinho. Mas, aí, terminei a faculdade, voltei para Uberlândia e, aos 22 anos, acumulei o trabalho na Receita com uma faculdade de Direito e uma empresa de ensino de idiomas, além de um namoro sério, daqueles "para casamento" (e foi mesmo). Então, envelheci em um instante. Foram tantas e tão sérias obrigações ao mesmo tempo que a juventude se tornou apenas um quadro na parede da memória. Tornei-me juiz já adulto por completo e o martelo da Justiça ainda completou a distância dos tempos de guitarra com uma queda de cabelo e o branqueamento do que restou.

Tati Bernardi termina seu texto dizendo que talvez reste a nós "aceitar que crescer é apenas chato e acontece com todo mundo". Eu tenho essa sensação quando escuto Renato Russo e me lembro de uma época em que eu vivia sonhando. Mas, não cultivo esse sentimento por muito tempo. Virar adulto realmente acontece com (quase) todo mundo. Não é tão ruim assim, desde que você não se sente "no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar", como dizia Raul. Ser adulto é chato por um lado, mas também é legal porque, se você quiser, finalmente terá condições de colocar a mão na massa e fazer algo realmente importante, ao invés de apenas sonhar.

Alexandre Henry

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Comentários

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