Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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7 de Janeiro de 2015 Alexandre Henry

O ser real e o ser virtual

A proximidade distante que a internet criou me deixa intrigado. Quando falo em proximidade distante, eu me refiro às centenas de contatos que temos por conta da rede, muitas vezes com conversas e trocas de informações repetidas com uma mesma pessoa o dia todo, mas sem que tenhamos um encontro físico. Em resumo, estamos muito próximos e muito distantes ao mesmo tempo.

A primeira pergunta é a seguinte: somos o mostramos na internet ou aquilo que está lá é o que gostaríamos de ser? Eu escrevi uma dissertação de mestrado sobre os comentários deixados por leitores nas notícias publicadas por jornais da internet. Meu objetivo era analisar a questão sob o ponto de vista jurídico, para saber se a liberdade de expressão ali tinha limites. Mas, intrigou-me também a questão psicossocial, principalmente pelo tom preconceituoso e violento de muitas mensagens. Sob o abrigo do anonimato, não são poucas as pessoas que postam comentários que fariam Adolf Hitler ficar corado. Pergunto: aquela pessoa que, diante de uma reportagem sobre um casamento gay, posta um comentário dizendo que todos os gays deveriam ser assassinados em praça pública, é um preconceituoso que se vê livre das amarras sociais para enfim poder, anonimamente, soltar todo o seu ódio? Ou o que define uma pessoa são seus atos e expressões públicos, sem o disfarce do anonimato? Enfim, somos o que fazemos escondido ou o que fazemos à luz do dia? Se eu desejo mentalmente a morte de todos os nordestinos, mas meus atos exteriores são todos de respeito e conciliação com os nordestinos, o que sou eu?

Quando vamos para as redes sociais, a situação se complica ainda mais. Ali, o que vale é o contrário do anonimato. Cada um quer se mostrar e interagir e, para isso, precisa se identificar e construir uma imagem. Com isso, redes como o Facebook se tornam uma interessante e variada vitrine de tipos humanos distintos. Tem que goste de exibir bens pessoais, mostrar o sucesso, expor a felicidade, mostrar-se inteligente com postagens sobre temas complexos, exibir uma opinião política, filosofar, passar-se por desinteressado etc. Aparentemente, é fácil traçar o perfil de uma pessoa pelo que ela publica em uma rede social. Mas, a gente é o que publica ou aquilo é o que a gente gostaria de ser? O que nos define é o que está na rede ou as nossas ações cotidianas?

Eu não tenho resposta para nenhuma dessas questões. Apenas me deleito em admirar a complexidade do ser humano, complexidade que só se fez mais latente a partir do momento em que a internet permitiu a cada um se expressar de forma anônima ou ainda mais pública do que o permitido na vida real. Conclusão? Moral da história? Nenhuma, felizmente ou infelizmente.

Alexandre Henry

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