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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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17 de Janeiro de 1996 Alexandre Henry

Hollywood Rock 96

Agora já é rotina (graças a Deus!): todo janeiro, além de muito sol, praia, cerveja e um climazinho pré-carnaval, desce lá do hemisfério norte um monte de carinhas metidos a fazer música, que eles mesmo chamam de rock n' roll. Chegam, alguns são velhos conhecidos, outros vão tocar pela primeira vez para um grande público, plugam suas guitarras e mandam ver o barulho que a galera jovem curte. É isso aí, janeiro é tempo de Hollywood Rock e não dá para deixar esse acontecimento de lado. O resto do ano é um marasmo total, a não ser quando aporta por aqui um cinqüentão querendo a grana dos brazucas. Então, o jeito é curtir o som que rola em Sampa e no Rio!

Para quem ainda está por fora, lá vai um pequeno roteiro do que é o maior festival de rock da nossa terrinha querida. Hoje será o dia mais brasileiro, com a nova e a velha geração nacional subindo no palco para mostrar que toda a new wave e o baixo astral dos anos 80 já estão pra lá de sepultados. Quem curtir a noite perceberá que as bandas brasileiras estão lutando para criar algo menos EUA/Europa e mais Brasil. Primeiro, Chico Science & Nação Zumbi, representantes do que eles chamam de mangue beat. Só para revivar a memória, o tal Science é aquele carinha que tocou com o Gil no Vídeo Music Awards da MTV. Quem subirá no palco depois será a galera do Cidade Negra, que dispensa comentários mais longos. O último CD deles (Sobre Todas as Forças) estourou nas paradas de sucesso e um monte de músicas ficou na língua do povo.

O som do Cidade é maneiro, batidinha de reggae, algumas letrinhas melosas e outras de protesto, só para não fugir do estilo. A noite tem ainda os reggaes ingleses do Steel Pulse e do Aswad. Para terminar a sexta com chave de ouro, pai Gil e seus companheiros deram o ar da graça. A Fernandinha Abreu com som novo na praça, atriz de comercial de chinelo, o talentoso Carlinhos Brown com as letras que só ele sabe o que querem dizer e o Djavan, que deu as caras nos últimos tempos com uma palhinha na faixa "One More Time", dos Paralamas, música por sinal do Carlinhos Brown.

Sábado é o dia mais esperado, não é para menos. Logo de cara, Raimundos, que como o Cidade Negra não precisam de muita apresentação. Eles são aquilo e pronto: som pesado, letras chulas, "forró-core". Lembre-se de alguma música cheia de palavrões que você ouviu nos últimos tempos, se não for Mamonas provavelmente serão eles. Ex-banda de covers de Brasília, os Raimundos tocavam no início os sucessos punks do Ramones, até invernarem na sua própria estrada, percorrendo o Brasil todo em uma Kombi. Depois da galera do Raimundos, é a vez dos ianques do Urge Overkill, famosos por aquela música do Pulp Fiction ("Girl, You'll Be a Woman Soon"). Prato cheio para quem se amarra nos malucos do Green Days, o som lembra muito eles. Com um pezinho no blues e a cabeça mergulhada no mais puro rock n' roll inglês, dá seqüência à maravilhosa noite o Black Crowes. Esse pessoal não é tanto conhecido quanto a dupla que entra logo em seguida, mas com certeza não deixará a peteca cair, mesmo porque o ânimo de quem vai estar no Pacaembu é infinito.

O encerramento dessa noite traz a maior atração do Hollywood Rock 96: a lendária dupla Robert Plant / Jimmy Page, que simplesmente arrasou os anos 70, com o som pesado e de indiscutível qualidade do Led Zepelin. Essa banda, que tinha os dois como seus cabeças, detonou o baixo astral que estava nascendo na era pós-Beatles. O que foram os anos 70? Ressaca da década anterior? Tempo de dar um tempo e esquecer tudo? Pois o Led estava lá para sacudir a moçada e não deixar morrer o bom e velho rock. Se alguém deve ser lembrado dessa época, esse alguém é o pessoal do Led, com certeza, ainda que se lembre também das viagens de Roger Waters com o Pink Floyd. Quando o som da guitarra de Page soa no ar, quando a voz de Plant inunda nossos privilegiados ouvidos, a gente percebe que a genialidade na música tem vários tons, se está presente em Mozart também está nessa dupla.

Lembro bem da primeira vez que escutei o maior sucesso do Led Zepelin. Aquela musiquinha de som triste, a melodia soprada lá no fundo, a voz falando de um tal caminho para o céu, senti já ter ouvido aquilo antes, sei lá, talvez em outra encarnação. Exageros à parte, a perfeição fez de "Stairway to Heaven" uma música chata, porque todo mundo conhece, todo mundo adora, todo mundo aprende porcamente a tocar um pedaço dela no violão, chata porque o sucesso detonou toda a sua aura e a sua magia. Mas ainda assim há muito o que viajar com ela, isso é verdade. E o Led Zepelin é mais, muito mais. Só quem conhece toda a sua história, os seus discos, só esse pode dizer realmente da força desse grupo.
O Plant já esteve aqui em 94, mas não foi como se espera que seja dessa vez. Desde que a velha dupla se reuniu novamente (valeu MTV!), parece que o som do Led ressuscitou de alguma forma. Tomara que os caras arrebentem no show de sábado à noite, é o que todo mundo espera.

Anos 70 e psicodelismo para lá, o domingo começa com o Pato Fu, aquele trio mineiro (alô Belô!) com uma vocalista deliciosa! A mocinha, que junto com sua banda foi a revelação do nosso primeiro Vídeo Music Awards, estourou nas paradas de sucesso com o hit "Sobre o Tempo". Resta ver se eles vão segurar a parada e dar seqüência à carreira. E para não deixar o corpo parar, entra no palco logo em seguida o pop bretão do Supergrass, uma banda sem muito a dizer sobre ela. Também sem muitos comentários entra o White Zumbi. Pelo que se ouve, a praia dos caras é dar uma de terror classe Z, para o prazer de quem se encantou com o Jason e a interminável e intragável série "Sexta-feira 13". Já sobre o Smashing Pumpkins há alguma coisa a se dizer. Há quem os considere os sucessores do Nirvana, opinião que eu não compar-tilho. Não que o som seja idêntico, eu estou falando em termos de coisa nova para o rock n' roll. Muito se tem festejado do seu último trabalho, o álbum duplo "Mellon Collie And The Infinite Sadness", sucesso lá fora. As músicas do Smashing Pumpkins são muito bem trabalhadas e arranjadas, graças principalmente ao perfeccionismo do seu líder, Billy Corgan, o que dá certa adrenalina para ouvir o álbum. Vamos ver o que eles têm para mostrar ao vivo.

Encerrando esse roteiro pelo Hollywood Rock 96 está o The Cure. Quem não se lembra deles? Para os mais novos, que acham o cabelo do vocalista do Green Days um ato de rebeldia contestadora do sistema, dou uma chance: lembra dos Mamonas? É, os Mamonas! O título de uma música deles, "Bois don't cry", é uma alusão ao maior sucesso dos ingleses do The Cure: "Boy's don't cry". Dizem que o jeitão do The Cure é imutável, eles continuam com a mesma cara de quando surgiram nos anos 70. Espero que o som ainda tenha qualidade suficiente para justificar o show de encerramento das três noites do Hollywood.

Terminado o roteiro, marco aqui um pequeno apelo aos nossos organizadores de festivais ou de simples shows: tragam a galera que está na ativa! Tudo bem, o Brasil está evoluindo nessa questão. Antigamente, show de estrela do rock internacional era só quando alguém gravava um disco ao vivo, ou seja, só a voz chiada na vitrola. Hoje é diferente, já passaram em solo nacional o beatle Paul McCartney, os Rolling Stones, Mickael Jackson e até a Madonna. Esses dois últimos até que ainda fazem sucesso, mas já estiveram em melhor fase. Os primeiros vieram ao Brasil apenas para encher o caixa, que anda apertado com a recessão lá fora. Estamos avançando, mas cadê o Vox e o U2? Cadê o pessoal do Dire Straits (se é que eles já não se separaram)? Cadê o REM? As bandas estão vindo aqui ou no começo da carreira, como foi o Nirvana, ou no final, como os Stones. Daqui a pouco é muito provável que os Smashing Pumpkins, por exemplo, estejam numa posição de grandes astros. Pois então, que eles voltem quando isso acontecer, quando a gente estiver com as letras das músicas na ponta da língua. O Brasil tem espaço para muito som, pois aqui se tem músicos de altíssima qualidade, uma musicalidade própria que não sufoca os outros ritmos, tem um público maravilhoso que ama a boa música, enfim, tem tudo para sediar grandes shows de todas as bandas que estão arrebentando lá fora. Estamos preparados para curtir um som de primeira.

Tomara que ouçam as nossas preces!

Alexandre Henry - Escritor

* Este foi o primeiro artigo publicado no Correio de Uberlândia, na minha coluna "Modo de Ver". O texto acima é o original, que foi editado e reduzido depois para publicação.

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Comentários

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