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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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19 de Março de 2017 Alexandre Henry

Determinação e autoconhecimento

Ter determinação é ter forte inclinação a ser persistente no que se quer alcançar, explica o dicionário. Quando você analisa a história de grandes atletas, você vai perceber que quase todos eles são marcados por essa característica, ou seja, por treinarem exaustivamente olhando para um objetivo claro, com muita persistência. Essa mesma característica está presente em grande parte das pessoas que alcançaram o sucesso profissional ou pessoal.

Sabe aquela frase, de que o brasileiro não desiste nunca? É exatamente disso que eu estou falando, embora, na prática, o que acontece é justamente o contrário: a maioria dos brasileiros quase sempre desiste em relação a inúmeros pontos de suas vidas. O velejador Amyr Klink já dizia que o brasileiro tem muita iniciativa, mas pouca “acabativa”, querendo dizer, com isso, que nós até que somos bons em ter ideias, em dar o primeiro passo, mas somos muito ruins de levar a coisa adiante, até o seu final. Deixemos, porém, as generalizações em relação ao nosso povo de lado para falarmos sobre a determinação em si.

Quando eu me refiro a ser determinado, não estou me referindo apenas a lutar para conseguir sucesso profissional, ter garra e persistência para terminar uma faculdade ou um doutorado, nem conseguir correr uma maratona. Falo também de coisas muito mais simples (ou não?). Quer um exemplo? Determinação para esquecer alguém que te causou muito sofrimento, especialmente no campo amoroso. Eu já fiz isso. Depois de muito sofrer, disse para mim mesmo que aquela tortura bastava, que a relação tinha chegado ao fim e que, daquele momento em diante, não haveria mais volta, nem mesmo uma simples recaída. Assim aconteceu. Pode ser o contrário também e, da mesma forma, isso também já aconteceu comigo. Eu decidi que queria namorar a minha esposa e, com calma, jeito e persistência, ou seja, com determinação, consegui dobrar a mocinha, começamos a namorar e estamos juntos há quase duas décadas. Também quis estudar na melhor universidade do Brasil e consegui. Decidi, depois, que aquele curso não me era suficiente e não sosseguei até fazer uma nova faculdade. Um dia, cheguei à conclusão de que não tentaria a vida profissional na iniciativa privada, mas que teria determinação para ir prestando novos concursos até me tornar um juiz federal. Não parei até conseguir o que eu tinha desejado.

Eu me considero uma pessoa determinada, mas tenho que confessar que não é fácil e que essa característica não me acompanha em tudo o que me proponho a fazer. Cuidar do corpo com frequência, mantendo uma rotina de atividades físicas, por exemplo, é algo que persigo (sem determinação) faz muito tempo e não tenho sucesso, no que estou acompanhado por uma boa parte da população. Usar menos as redes sociais, voltar a ler livros com mais frequência e relaxar totalmente nos finais de semana são objetivos perseguidos sem qualquer determinação e, claro, não atingidos. Assim vai. Basta eu olhar para mim mesmo para entender que tudo aquilo de bom que eu consegui teve uma boa dose de determinação. Ao contrário, minhas frustrações estão quase todas ligadas à falta de empenho e persistência. Simples assim.

Aí você me pergunta: como é que eu faço para ter determinação e conseguir o que eu desejo? Novamente, eu olho para mim mesmo para chegar à resposta. O primeiro passo é realmente desejar aquele objetivo. Eu tenho a mesma vontade de usar menos as redes sociais que tinha de conseguir namorar a minha esposa? É claro que não! Por isso, se você quer atingir um objetivo, trabalhe a sua mente de maneira a se convencer que você deseja muito chegar a ele. O segundo passo é começar. Eu nunca vou correr uma maratona se eu, hoje, não colocar um tênis e dar ao menos uma volta no quarteirão. Já dizia o ditado que toda grande caminhada começa com o primeiro passo. Completo o ditado:  sem esse primeiro passo, não existe qualquer caminhada, nem mesmo a menor delas. O terceiro passo é colocar na sua cabeça que você não vai desistir quando começarem a surgir os obstáculos, o que vai acontecer provavelmente logo no início e vai continuar acontecendo mesmo quando você estiver prestes a tocar na linha de chegada.

Todas essas sugestões que eu acabei de falar, para que você consiga ser uma pessoa determinada, passam por um trabalho mental que só você mesmo pode fazer. Por mais que o mundo te diga o que você deve fazer exercícios físicos, se você não disser isso para você mesmo todos os dias, nada acontecerá. Essa máxima vale para qualquer coisa. Temos que aprender a conversar com nós mesmos, temos que aprender a fazer uma reflexão diária sobre o que queremos para amanhã, para a semana que vem, para o próximo ano ou para quando estivermos já velhinhos. Sem esse processo contínuo de autoconhecimento, você pode esquecer esse papo de determinação e, em consequência, pode esquecer a maioria dos seus sonhos.           

Alexandre Henry - Escritor e Juiz Federal

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