Modo de Ver

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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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2 de Abril de 1996 Alexandre Henry

Como nossos avós

Hoje é Sábado de Aleluia, você se lembrou disto? Pois é, antigamente este sábado era dedicado ao furto de penosas, na tradicional cerimônia do roubo de galinhas. O tempo passou, Sexta-Feira da Paixão é apenas um feriado pra gente viajar e a Páscoa só serve pra todo mundo se entupir de chocolate. Velhos tempos aqueles, quando a carne de galinha era alimento nobre e reservado para os domingos, devidamente acompanhado de uma macarronada. Muita gente tinha o seu galinheiro em casa e ladrão de galinhas era um criminoso de respeito, pelo menos no Sábado de Aleluia. Hoje, porém, este personagem é como a própria galinha caipira: uma lenda.

Falando de tradições, os feriados religiosos perderam muito do seu significado primitivo. Muita gente nem quer saber se é feriado disso ou daquilo, quer saber é se vai dar pra prolongar um pouco mais a viagem. Uma das causas talvez seja a própria decadência da instituição que criou essas datas, ou seja, a Igreja Católica. Quem se lembra do último 12 de outubro? Que vergonha, não é? Pois então, o chute na santa foi uma prova do declínio do Vaticano. Mas algo está mudando...

Muito se viu de decadência de tradições nas décadas de sessenta e setenta, quando as revoluções de comportamento deram uma sacudida na moçada jovem. Depois, veio a década de oitenta e parece que pairou um vazio, um nada. Aliás, que me desculpem os jovens que amadureceram naquela época, mas os anos oitenta realmente foram perdidos. Não havia mais nada para ser contestado, nem ninguém para se seguir. Quem estava no auge de sua juventude sentia-se sem um horizonte, sem TFP ou MR-8, sem guerrilha, sem líderes, sem nada. O jovem ascendente era o yuppie de New York, enfurnado em um escritório à caça do seu milhão de dólares e de sua BMW zero quilômetro.

Só que esse tempo também se foi, deletado pelos programas de Bill Gates. E sabe qual a conseqüência disto tudo? Uma volta ao passado, mas não àquele passado de 68. Estamos indo mais longe, cortando o tempo em direção à era pré-beatles, cheios de nostalgia. Nesta Páscoa, por exemplo, muitos jovens irão se dedicar ao lado religioso do feriado, à comemoração da ressurreição de Cristo, isolados em um retiro qualquer das tantas igrejas de hoje em dia. Ou seja, estarão contrariando o que eu acabei de dizer sobre a decadência das tradições religiosas.

Há poucos anos, seria uma vergonha dizer que iria passar um feriadão todo num lugar isolado do resto do mundo, dedicando grande parte do tempo a orações religiosas. E sabe por que isso mudou? Justamente pela falta de ídolos e horizontes a se seguir. Um dos diferenciais do ser humano é essa queda pelo surreal, pelos mitos, pelos ícones, pela religião. Os jovens dos anos seguintes à revolução sexual, por exemplo, foram ficando largados, sem um ponto onde pudessem se apoiar. Nessa mesma época, foram emergindo religiões que miraram seus olhos para a juventude. E mesmo a Igreja Católica se abriu para esse público, ainda que de forma tímida. A conseqüência lógica foi o início de uma nova participação da juventude na religião, agora sob uma roupagem mais descontraída, ainda que bastante séria.

E não é só isso. Dizem que as gerações sucessivas se opõem, daí pais e filhos nunca conseguirem uma sintonia ideal. Pois estamos modernizando os costumes de nossos avós. De alguma forma, estamos preocupados com o sexo, queremos conservar nossa virgindade para um relacionamento mais sério, queremos um lugar ao sol, pensamos em uma família, casamento, filhos. Se nossos pais fizeram uma revolução, talvez estejamos dando objetivos concretos para aquelas idéias. Só não sei aonde chegaremos, tampouco se nossos filhos serão novos rebeldes e nos contestarão quando lhes dissermos que eles têm um futuro pela frente. Como sempre, não há nada definido. A única certeza é que hoje, Sábado de Aleluia, aquela velha figura do ladrão de galinhas não aparecerá sorrateiramente nos galinheiros. Esse, coitado, foi-se para sempre. De resto, Feliz Páscoa para você, com muito chocolate, é claro!

Alexandre Henry

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Comentários

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