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A coluna "Modo de Ver" foi publicada semanalmente no jornal Correio de Uberlândia de janeiro de 1996 a dezembro de 2016. A partir de 2017, os textos passaram a ser publicados no Diário do Comércio de Uberlândia.


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2 de Maio de 1996 Alexandre Henry

A professora e o diploma

"Era uma vez um país descoberto por um cidadão de além-mar, onde morava um sujeito dedicado a preparar o seu futuro com afinco. Desde cedo, quando a mãe lhe levara pela primeira vez a uma escola do governo perto de sua casa, apaixonara-se pelos estudos. Nunca tinha visto um caderno à sua frente e aquele brochura comprado na venda foi paixão imediata, assim como a professorinha da primeira série.

Ele se esforçou como ninguém. Passava manhãs inteiras em claro, deixando de lado a menininha desdentada que apresentava um programa infantil na televisão. As primeiras tarefas foram árduas, não conseguia levar o lápis ao final da página sem sair da linha tracejada, mas mesmo assim ele não desistiu. Foi em frente, suou a camisa, engoliu tabuadas e finalmente venceu a primeira série. Nunca mais esqueceria a cara da amada professora dando-lhe adeus no último dia de aula, dizendo de longe que nunca havia tido um aluno como ele. Chorou, nunca confessara isso, é claro, mas chorou escondidinho ao lado da estante de livros, onde começava a arrumar uma futura biblioteca.

Os outros anos foram como ventos de tempestade, tão rápidos e fortes que ele nem se deu conta depois do que havia acontecido. O único problema foi encarar a duríssima terceira série, que todo mundo dizia ser apertada. Mais uma vez, e sempre e sempre, sujou as mãos de grafite no esforço de conseguir um futuro. Pronto! Recebia o diploma de primeiro grau! Ah, mas todo mundo deveria ver o seu discurso na formatura! Falou até dos problemas sociais nas escolas, coisa linda de se ver!

No colegial bateu um medo. Tinha muitas aulas, Física, Química, Biologia. Tremeu. Depois, viu que conseguiria. O pior foi o vestibular, quando passou o ano inteiro tomando suco de maracujá pra acalmar os nervos. Às vezes se lembrava da tal Simoni e do balão dela, sentia saudades daquela época. E como chorou quando ouviu seu nome no rádio! Estava na faculdade, finalmente!

Orgulho dos pais, entrou nas arcadas do conhecimento de peito erguido. Mergulhou em bibliotecas, almoçou livros e teve um caso de amor com uma régua de cálculo, no bom sentido, é claro. Apertado nos estudos, ainda assim não hesitou em aceitar a presidência do diretório acadêmico. Lutou, lutou sim, pelos seus caros amigos estudantes! Depois, as coisas apertaram e ele teve que se dedicar só aos livros.

Lembrava ali toda essa história, enquanto esperava a secretária ir buscar o tão sonhado diploma. Abaixou a cabeça, lembrou-se de novo da primeira professora, chorou. E lá veio a secretária, rebolando com aquele quadril ligeiramente alargado:

- O senhor não pode pegar o seu diploma ainda. Seu histórico escolar está incompleto.

Desesperou-se:

- Mas minha senhora, de... deve ter alguma coisa errada aí! Eu fiz todas as matérias, todos os créditos, tudinho!

- Aqui não diz isso.

Desesperou-se, estava angustiado, argumentava, chorava, berrava:

- Eu fiz tudo!

- Não fez, não senhor.

- O que falta? Diz logo!

- O computador acusou que o senhor não cumpriu o pré-primário. O senhor não sabia que é lei? Se não cumprir, não poderá ter o seu diploma. O computador não aceita histórico incompleto. Volte aqui quando tiver o diploma de pré.

Por pouco ele não tentou se suicidar. Esperneou, chorou, rolou no chão, ofereceu propina pra secretária, falou até com o reitor, mas não teve jeito. Pensou em entrar na justiça. Não, iria demorar muito. Daí, um dia ele acordou decidido a acabar de vez com o problema. É, quem sabe tudo desse certo. Escutara de alguém que a professorinha ainda estava na escola e que agora lá tinha o pré, onde ela dava aula. Talvez a professora estivesse um pouquinho judiada do tempo, mas ele sentia saudades dela. Sim, faria logo o pré para poder pegar o diploma. A professora? Quem sabe..."

P.S.: Ainda bem que isso é só a minha imaginação. Menos pra quem está entrando agora na escola. Bons tempos aqueles...

Alexandre Henry

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Comentários

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