O tal do bom senso

Você tem direito de andar livremente pela cidade sem que ninguém o agrida. Além disso, o estado tem o dever de te proteger contra agressões indevidas, seja ao seu corpo ou ao seus bens. Isso vale inclusive para o caso de você decidir cruzar a cidade toda noite a pé, sozinho, cheio de joias penduradas e contando dinheiro. É direito seu fazer o que não está proibido na lei e caminhar de noite contando dinheiro não foi proibido. Por isso, vou continuar dizendo que é seu direito e que ninguém pode te assaltar. Mas, isso não significa que eu defenda que você agiu com bom senso.

Nas cartas que São Paulo escreveu aos Coríntios, há frase interessante: "Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém". Apesar de estar no livro dos cristãos, essa máxima certamente é compartilhada pelos judeus, muçulmanos, budistas, agnósticos,  ateus, filósofos e por aí vai. Você quer entrar na casa da vizinha, pegar o bebê dela que não para de chorar e o atirar pela janela? Sim, você pode. Mas será que convém? Será que o resultado disso é bom? Da mesma forma, ao menos em relação ao que eu acredito, você pode se expressar da forma como quiser contra ideias, conceitos ou religiões. Logo, você tem a liberdade de criticar as posições católicas contra uniões homoafetivas publicando na capa de um jornal um desenho de dois homens fazendo sexo anal, com o primeiro dizendo "O pai" e o segundo dizendo o "O filho", tendo este último um triângulo enfiado no ânus com a expressão "O espírito santo". Sim, você pode - e a publicação Charlie Hebdo, tão em voga nos últimos dias por conta do atentado que sofreu, trouxe essa imagem na capa de sua edição de novembro de 2012. Mas, será que convém criticar uma ideia religiosa de forma tão ofensiva?

Entender que se pode fazer praticamente tudo, mas deixar de fazer muitas coisas pelo fato de não serem convenientes, é exercitar uma das maiores qualidades que um ser humano pode ter: o bom senso. No império do bom senso, a maioria das tragédias é evitada e a convivência entre todos fica muito mais agradável e harmônica. Se eu posso escolher entre duas atitudes e uma delas é mais sensata, produzir resultados mais positivos de forma menos traumática, por que eu vou escolher a outra opção? Se eu posso andar de ônibus e ser discreto com meus pertences, por que vou cruzar a cidade a pé, contando dinheiro? Se eu posso criticar as ideias católicas ou muçulmanas sem ofender os devotos dessas religiões, por que vou escolher o caminho do escárnio (e sem a menor graça, diga-se de passagem)? Repetindo, você pode tudo e muita coisa o próprio direito te concede. Mas, ainda que você possa e a lei esteja ao seu lado, será que é conveniente sua atitude? Será que é a expressão de alguém que age com bom senso?

Alexandre Henry

ALVES, Alexandre Henry. O tal do bom senso. Disponível em <http://dedodeprosa.com/conteudo/mododever/o-tal-do-bom-senso/>. Acesso em: 14/07/2020