O que faz um homem feliz

Fui acordado no domingo por uma porta aberta de forma desajeitada, seguida por uma vozinha fina e gostosa: “Papai, eu já acordei!”. Prestes a completar três anos, minha pequena filha estava aos meus cuidados, pois a mãe continuava a dormir. Conversamos um pouco, ela mandou eu ficar quieto para pentear meu cabelo e, depois, decidimos ir à padaria. Antes, claro, dei um banho nela e tomei uma bronca ao vesti-la: “Papai, essa calcinha laranjada não combina com o meu vestido”. Em seguida, o tormento de pentear o cabelo dela (a parte mais difícil da minha vida como pai), o monte de “por que” até o carro, o saco de pão que ela é que quis colocar na balança e mais um milhão de coisas pequeninas que fizeram nosso domingo ser gigantesco de feliz.

Três anos de paternidade já me fizeram sentir muita dor pelas crianças que crescem sem um pai presente. Hoje, porém, acabo sentindo uma pontinha de dor também pelos homens que estão perdendo esse momento fantástico. No mesmo domingo, depois de me deitar ao lado dela por cerca de uma hora, no final da manhã, enquanto ela dormia embalada pelo sono causado por um antialérgico, levantei-me silenciosamente da cama. Dois passos depois, ouvi a vozinha manhosa e carente: “Papai, deita aqui do meu lado mais um pouquinho...”. Aí, eu te pergunto: onde você está com a cabeça ao não desejar ou dar valor a um momento assim? Meu amigo, você já parou para pensar no que realmente faz a vida valer a pena? Eu tenho uma boa casa, um bom carro e um bom trabalho. Nada que espelhe riqueza, mas apenas uma vida com certo conforto. Só que nada disso é melhor do que o abraço que ganho várias vezes ao dia, a mãozinha carinhosa no meu rosto, as declarações de amor nascidas lá do fundo de um coração puro e ingênuo. O momento em que me sinto o homem mais poderoso do mundo não é quando decido a vida de dezenas de pessoas em um só dia, mas quando estou trabalhando no escritório de casa, pela manhã, e ouço aqueles passinhos desajeitados me dizendo que lá vem uma garotinha toda descabelada, sonolenta e de olhos inchados, doida para se aninhar por alguns minutinhos no colo do pai. Sim, é nessa hora que me sinto poderoso, pois quem vivencia um amor assim enfrenta qualquer coisa nesse duro cotidiano de gente grande.

Continuo lamentando pelas crianças que não podem ter um pai presente, por qualquer motivo que seja. Mas, como eu disse, passei a lamentar também pelos pais que abdicam de exercer o melhor e mais rico papel que a vida pode dedicar a um homem. Ao perceber tantos pais ignorando seus filhos, eu tomo de empréstimo as palavras de Bob Dylan e me pergunto: “Quantas vezes um homem deve olhar para cima antes de conseguir ver o céu?”.

Alexandre Henry

ALVES, Alexandre Henry. O que faz um homem feliz. Disponível em <http://dedodeprosa.com/conteudo/mododever/o-que-faz-um-homem-feliz/>. Acesso em: 26/01/2020