O monopólio sertanejo

Na semana que vem, completo 20 anos de coluna “Modo de Ver” aqui no Correio de Uberlândia. Meu primeiro texto recebeu o título “Rock ‘n Roll invade Sampa” e falava sobre o Hollywood Rock que aconteceria naquele janeiro de 1996. Duas décadas depois, quase tudo mudou e aquele texto certamente não mais se repetiria nos dias atuais, pois o som das guitarras é apenas um quadro na parede da minha memória e, mais do que isso, o rock n’ roll simplesmente saiu da cena comercial no Brasil.

Li uma reportagem sobre as 100 músicas mais tocadas nas rádios brasileiras em 2015 e, segundo a matéria, pela primeira vez o rock nacional ficou de fora. Para alguém como eu, que construiu suas referências musicais na década de 1980, auge desse estilo musical no Brasil, a notícia traz melancolia, sensação de que estou ficando velho e um motivo a mais para não ligar o rádio. Não bastasse isso, a mesma reportagem informa que 75 das 100 músicas mais tocadas no ano passado eram sertanejas, fato que me incomoda bastante. Eu não sou fã de música sertaneja, mas não tenho nada contra. Escuto Victor & Leo sem problemas e até consigo chegar ao fim de uma música do Luan Santana. O problema é o monopólio. Tudo o que é demais é ruim e, sinceramente, a cultura musical brasileira precisa de um pouco mais de variedade, até porque a própria música sertaneja está muito homogênea, sem grandes variações dentro dela. Isso cansa e me afasta ainda mais do rádio. Trabalho em Ituiutaba, por exemplo, e as três rádios que meu carro pega lá só tocam as “modas” - que não são exatamente de viola. Em Uberlândia, a Universitária é a única rádio que não se rendeu ainda, pois até a 95,1 abriu as portas para o monopólio sertanejo.

Tudo bem, eu concordo que o rock e a MPB não estão produzindo mais novidades e esse é um grande motivo para a turma do Luan Santana ter tamanho domínio do rádio. Fora do Brasil, a coisa também não anda boa. No cenário do pop/rock, tivemos o que nos últimos anos? Lady Gaga? Talvez Adele e Amy Whinehouse, mas não muito além disso. Pode ser também que, envelhecendo, eu tenha deixado de acompanhar os novos sons que são produzidos pelos quatro cantos do mundo, fechando-me na repetitiva lista de canções com mais de duas décadas de existência. Essa última hipótese, porém, parece-me fraca diante dos números que citei. Se o problema fosse minha falta de atualização musical, teríamos alguém do pop/rock nacional na lista das 100 mais tocadas e, mais do que isso, não teríamos 75 músicas sertanejas. E, se essa é a realidade, sinto pela cultura brasileira. Nada contra o sertanejo, repeito, mas é que cultura se faz com variedade e, isso, não temos mais por aqui.

Alexandre Henry

ALVES, Alexandre Henry. O monopólio sertanejo. Disponível em <http://dedodeprosa.com/conteudo/mododever/o-monopolio-sertanejo/>. Acesso em: 14/07/2020