Inveja de Jagger

Fui ao show dos Rolling Stones no Rio de Janeiro, no último sábado, e fiquei absolutamente impressionado com o vigor de seus integrantes, especialmente o vocalista Mick Jagger. A apresentação durou mais de duas horas e apenas uma música foi mais sossegada. O resto tudo foi o mais puro rock ‘n roll e Jagger pulou, correu, dançou e se mexeu o tempo inteiro, mas o tempo inteiro mesmo. Claro, cantou também e, diga-se de passagem, cantou muito bem e com um vozeirão impressionante, sem aquele velho truque de deixar a plateia levar a música sozinha nas notas mais altas.

Mick Jagger fará 73 anos em julho. É mais do que a expectativa de vida do homem brasileiro. Nessa idade, a maioria dos mortais ainda vivos já está mergulhada em remédios para pressão alta, diabetes e outros males, lutando para caminhar alguns quarteirões sem precisar de ajuda. Jagger fez de tudo na vida e um cotidiano regrado, daqueles recomendados para esticar os dias na terra com qualidade, certamente nunca foi algo que ele prezou. A impressão que se tem é a de que ele vive de forma intensa e sem se olhar pelo retrovisor que mira o passado. Idade? Não, ele não sabe o que é isso. Seu corpo se mexe como o de um garoto, sua energia explode como a de um adolescente e o cansaço passa longe de seu semblante. Já caminhando para o final do show, meus pés e minhas pernas pediam arrego, mesmo eu tendo chegado ao estádio com pouca antecedência. Pensei em reclamar das dores e me senti envergonhado: ainda nem fiz 40, estava parado no mesmo lugar e ainda sentava de vez em quando, enquanto aquele senhor septuagenário já tinha gastado mais calorias em duas horas do que eu em semanas de exercícios.

Sim, fiquei com inveja de Jagger. Aliás, há muito o que invejar dele: um dos rockeiros mais famosos da história, fama mundial, dinheiro e mulheres. Mas, o que se sobressaiu para mim foi o domínio do tempo, a jovialidade que teima em não ir embora. Manter o pique depois de tanto tempo talvez seja o mais difícil. Fama, dinheiro e mulheres fizeram parte da vida de muita gente. Já tudo isso e mais duas horas e meia de pura adrenalina em cima de um palco, como se fosse a primeira vez, quase ninguém teve ou terá. Nesse ponto, Jagger é um exemplo.

Alexandre Henry

ALVES, Alexandre Henry. Inveja de Jagger. Disponível em <http://dedodeprosa.com/conteudo/mododever/inveja-de-jagger/>. Acesso em: 14/07/2020