Eu e o Carnaval

Tenho que confessar que eu e o Carnaval nunca combinamos direito. Não que eu tenha alguma coisa contra ele, até acho interessante que o país tenha uma festa na qual o povo pode extravasar suas emoções, esquecendo um pouco o cotidiano nem sempre fácil. O meu problema com o Carnaval é mais, digamos assim, de compatibilidade mesmo. Não nasci física ou emocionalmente preparado para ficar pulando cinco dias.

Confesso que já tentei. Quando menino, fui a algumas matinês do Praia Clube e não tenho do que reclamar. Aliás, apenas para registro histórico, o primeiro texto que publiquei neste Correio de Uberlândia foi no espaço destinado para os leitores, falando da proibição de venda de álcool para menores na matinê do Praia. Depois, quando eu tinha meus 18 anos, tentei passar Carnaval em Campinha Verde, na época em que a festa lá bombava. Fomos em uma turma de amigos, todos de ônibus, animados a dormir em barracas. Chegando lá, a turma mudou de ideia e quis alugar uma casa. Iríamos ficar muito mais bem instalados, claro. O único problema é que o dinheiro do aluguel da casa consumiu todos os meus recursos e eu passaria cinco dias pulando Carnaval sem ter o que comer. Enquanto isso, uma namorada minha ficava em Uberlândia sozinha. Não tive dúvidas: saí do rateio da casa, peguei minhas trouxas e voltei para Uberlândia no mesmo dia. Acho que isso foi em 1994. Depois, já em 1998, fui passar o Carnaval em Caldas Novas, uma ideia meio suicida na época. Fomos em uma turma também, para ficar em uma casa alugada. Foi até legal. Arrumei um "rabo de saia" e passamos os dias juntos, mas só eventualmente fomos para o meio da muvuca. Sabe aqueles relacionamentos duradouros que começam no sábado de Carnaval e acabam na Quarta-Feira de Cinzas? Foi exatamente isso. No ano seguinte, voltei a Caldas Novas com a minha namorada, que depois virou minha esposa. Mesmo esquema: casa alugada e um monte de amigos. Agora, pense se eu estava com juízo? Passar Carnaval em Caldas com namorada é algo inteligente a se fazer? A hipótese mais provável é de você sair no braço com algum engraçadinho que resolva atazanar sua namorada, o que quase aconteceu naquele ano. Ainda tentei pular Carnaval no ano seguinte, dessa vez em Anhanguera. Em resumo, também foi um fracasso.

É certo que nunca fui à Sapucaí e nem segui um bloco em Salvador, mas mesmo assim tenho certeza de que eu e o Carnaval não nascemos um para o outro. Melhor eu ficar no meu canto sossegado e deixar que o Carnaval arrume outros parceiros mais animados do que eu, que possam fazer companhia a ele até quarta-feira.

Alexandre Henry

ALVES, Alexandre Henry. Eu e o Carnaval. Disponível em <http://dedodeprosa.com/conteudo/mododever/eu-e-o-carnaval/>. Acesso em: 25/09/2020