As curvas da Kate Moss

Recentemente a revista norte-americana Newsweek publicou uma grande reportagem sobre a publicidade da Calvin Klein, a famosa grife de roupas e um dos símbolos do jeans. Até certo ponto parcial, a reportagem mostrava a polêmica em torno da sensualidade e da sexualidade expostas nos anúncios da marca. 

"Eles estão explorando crianças inocentes" - dizia uma mãe revoltada. "Eu não permitiria a minha filha de usar algo como aquilo, e ela sabe disto" - completava. O aquilo a que ela se referia era uma das peças da nova campanha mundial da marca, ainda mais apimentada com sabores sexuais do que as anteriores. Mas um pequeno detalhe chamava a atenção: as palavras de sua filha. "Eu não me importo e também não acho que eles estão explorando ninguém" - dizia a menina. Quem está certo, quem está errado? Será ela mais uma daquelas mães modelo mil novecentos e cinquenta ou a publicidade realmente está ultrapassando os limites saudáveis da boa comunicação? 

Eu não tenho a resposta, apesar de ser mais simpático às palavras da garota. Opinião pessoal, é claro. Confesso até que gostei daquele anúncio provocante da Marky Mark, uma loirinha de lábios sensuais e olhar provocante, sentada no chão de uma forma bem adolescente com um pequeno short que não cobria muita coisa. E do anúncio da Kate Moss, outra beldade, deitada de bruços sobre um sofá, totalmente nua! 

A propaganda realmente vem apelando cada vez mais para o corpo, para o sexo e os instintos selvagens do homem e da mulher. Tente fazer uma coisa: ligue a televisão e fique à sua frente na hora dos comerciais. Vá contando quantos comerciais mostram jovens bonitos vestidos (ou não!) sensualmente. Talvez você ainda não tenha percebido, mas depois desse pequeno exercício não restarão mais dúvidas sobre o excesso de exposição de corpos na televisão. Aliás, em todos os meios de comunicação.

Pronto. Depois desse exercício de uma passadinha em algum dos dois shoppings da cidade num dia de calor e comece a reparar nos jovens presentes, se é que você ainda não fez isso. Veja se há muita diferença entre a tela da TV e a imagem da realidade. Há? Talvez alguma, mas bastante sutil. Quer dizer, no shopping não há nenhuma Kate Moss deitada em um sofá toda nua, mas a sensualidade hoje já é marca registrada da juventude e ela gosta disso. Quantas vezes você já ouviu algum colega seu reclamar do comercial da Mônica Carvalho tomando banho? Pelo contrário, essas são as propagandas mais comentadas pelos jovens, e olha que não existem opiniões contrárias a elas.

Não sei até que ponto a publicidade estaria exagerando. Campanhas como a da Calvin Klein foram criticadas principalmente por exporem jovens muito novos, verdadeiros adolescentes recém saídos da puberdade. De uma certa forma é uma apelação e a marca talvez estaria apenas querendo provocar uma polêmica, e todo mundo sabe que polêmicas são sinais de sucesso, ainda mais em campanhas publicitárias (vide Benetton). A filha da senhora revoltada acha que não, que não há exploração nos anúncios, opinião compartilhada pela maioria dos adolescentes, ávidos espectadores de qualquer cena onde apareçam os seios de uma morena na praia ou qualquer coisa do gênero. As novelas e filmes muitas vezes vão bem mais longe do que isso. Então, a publicidade seria realmente culpada por estar expondo em excesso a sexualidade dos adolescentes? E você? O que acha disso tudo? Vamos lá, bote o seu senso crítico para trabalhar!

Alexandre Henry - Escritor

* Este foi um dos três textos apresentados ao editor do Correio de Uberlândia, Maurício Ricardo Quirino, como proposta para a criação de uma coluna semanal no jornal.

ALVES, Alexandre Henry. As curvas da Kate Moss. Disponível em <http://dedodeprosa.com/conteudo/mododever/as-curvas-da-kate-moss/>. Acesso em: 25/09/2020