Adeus missão impossível

Definitivamente, agora nós estamos na era do super, do gigantesco, de tudo que pareça estar fora do controle de nossas mãos. São coisas que um dia foram simples, como uma pequena feira de arte, um evento esportivo, um filme, nada demais.

Quando o barão Pierre de Coubertin teve a idéia de resgatar uma antiga festa do esporte surgida na Grécia, ele pode até ter imaginado pessoas de vários países competindo junto, mas com certeza não se passou pela sua cabeça um megaevento como essa Olimpíada de Atlanta. Nos Jogos de 96, todos os números são recordes, desde atletas e países participantes ao número de espectadores e os valores dos contratos publicitários.

Mas não é só com o esporte que a gente se espanta hoje em dia pelo tamanho, é com tudo. Nesse ponto, os xenófobos que odeiam os americanos têm que abaixar a cabeça, porque a mania de grandiosidade se espalhou com a ascensão dos EUA. A começar pelo nome: eles não são um país, são a América. Têm o maior hambúrguer, o prédio mais alto, o computador mais moderno, a maior rede de TV a cabo, o mais tudo. E como não poderia deixar de sua, a sua Olimpíada tinha que ser a maior!

Se alguém acha ruim essa realidade, pelo menos em alguns pontos ela é bastante benéfica. No cinema, por exemplo. Olha, aí pode falar o que for de filmes de outros países, mas eles são os reis e pronto acabou, não tem conversa. Graças a Deus que não deixam a desejar. Quem costuma ir ao cinema sabe bem disso, ainda mais se acompanha as produções do Spielberg & Cia. "O Parque dos Dinossauros", só para começo de papo, mostra bem o que é essa grandiosidade de final de século. Foram milhões de dólares, mais de um ano montando os bonecos dos dinossauros, aí veio um nerd qualquer e mostrou que podia fazer melhor usando um computador, mais um ano e meio, fizeram. E ficou aquela perfeição que agradou meio mundo. Isso é super legal, porque o trabalho que os caras tiveram abriu caminho para novas produções gigantescas, possibilitando-nos ver as coisas que nunca conseguiram atravessar o limite da nossa imaginação, como os dinossauros andando ao lado de seres humanos ou uma bomba de hidrogênio mandando pelos ares a Casa Branca. Outro filme que eu colocaria como grandioso, apesar de não ter usado toda a tecnologia do Spielberg, é o "Drácula" do Copolla. Perfeito, é o único comentário que tenho. E tem mais! Mesmo com uma história medíocre, "Twister" também foi feito na mesma linha dessa mania de grandeza. O resultado foi que a gente de certa forma pode realizar o desejo de ver de perto a força da natureza.

Agora, nada se compara ao que vem por aí, no dia 9 de agosto: "Independence Day" com certeza surpreenderá e encantará praticamente todo mundo, ainda mais os aficionados por ufologia, guerra e temas semelhantes. Eu já vi o trailer do filme, é grandioso. De repente, o mundo acorda com uma invasão alienígena e tudo vira um caos, parece ser o fim do mundo. Mas eu já aviso logo: esqueça primeiro aquelas coisas como "Perdidos no Espaço", agora a conversa é outra. Igual aos dinossauros do Spielberg, você terá a impressão de que a Terra está realmente sendo atacada, tamanha a produção que os caras fizeram.

O melhor de tudo é que quando a gente se enjoa desse universo de números e produções extraordinários, pode assistir a um "O Carteiro e o Poeta", ou então deixar os recordes da Olimpíada de lado e jogar uma bola só com os amigos. Aí o dinossauro do filme fica de lado e só aparece em alguma piada simples na roda de conversa.

Talvez essa era que estamos vivendo, em que nos deparamos constantemente com o grande e o extraordinário ao lado de acontecimentos simples do dia a dia, seja fruto do aumento assustador da população e do avanço tecnológico. Mas é bem melhor do que antigamente. Se não for, pelo menos é mais legal. Afinal de contas, antes as pessoas tinham apenas as letras de um Júlio Verne quando queriam viajar na imaginação. Agora, como mostrou Tom Cruise, não existe mais "missão impossível". Basta ligar a TV ou ir a um cinema para admirar com os olhos tudo o que o pensamento é capaz de criar.

Alexandre Henry

ALVES, Alexandre Henry. Adeus missão impossível. Disponível em <http://dedodeprosa.com/conteudo/mododever/adeus-missao-impossivel/>. Acesso em: 14/07/2020