A liberdade que me toca

O atentado ao Charlie Hebdo provocou diversas reflexões sobre liberdade de expressão e sobre o que é certo ou errado. Duas delas me chamaram a atenção. A primeira debateu a hipocrisia: por que defendemos o direito a uma charge zombando de valores muçulmanos, mas achamos absurda uma piada sobre negros ou gays?

Eu estava tendente a realmente enxergar hipocrisia nesse comportamento aparentemente dúbio, até que li a opinião de um amigo juiz, o Eduardo Vandré, que assim escreveu: “Eu simplesmente não consigo comparar fazer piadas com religiões com fazer piadas sobre deficientes, negros, mulheres, gays, transexuais e demais minorias (inclusive islâmicos). Posso estar errado, mas não consigo. Ofender uma religião é como ofender o darwinismo ou um clube de futebol. Não é uma ofensa à pessoa pelo que ela é; é uma ofensa às idéias que ela acredita”. Diante dessas palavras, meu pensamento se embaralhou, pois há certa lógica na diferenciação entre ser (como ser negro, algo inevitável) e pensar (como o “pensar católico”, algo teoricamente evitável). Não seria justo criticar alguém por algo que ele não pode deixar de ser, mas seria aceitável criticá-lo pelas suas escolhas voluntárias.

Sendo assim, posso concluir que defender uma sátira ao islamismo e condenar uma piada sobre negros não é uma atitude hipócrita? A resposta a essa pergunta depende de cada um. O ser humano não é feito de lógica, muito menos é lógica a sua escala de valores. Nós não nascemos prontos e nem tudo é questão de escolha, mas da realidade que nos cerca. Essa realidade é, muitas vezes, tão inevitável quanto a cor da pele. Por isso, pessoalmente, abstenho-me de chegar à mesma conclusão a que meu amigo chegou, pois acredito que, para muita gente, a religião é exatamente como a cor da pele, ou seja, imutável. Isso é sinal de subdesenvolvimento? Dizer que sim soaria, em minha pessoal escala de valores, como um preconceito. Não acredito que seja possível afirmar que um homem religioso seja mais ou menos evoluído que um ateu. Mas, repito que essa é uma visão minha. O pensamento do meu amigo faz todo sentido sob um ponto de vista racionalista ocidental, embora não passe de uma míope e intolerante opinião para um jovem criado em um ambiente fortemente religioso.

No fundo, acredito que um tiro não é e nunca será, em contexto algum, a resposta adequada a uma idéia, ainda que essa idéia seja deveras ofensiva. De resto, fico apenas com a certeza da complexidade do ser humano e, claro, do fato de que cada um defende seus próprios valores. Nessa complexidade que nos é tão característica, não há conclusões universais ou verdades irrefutáveis, mas apenas a realidade de cada um, tão diversa como cada ser em si.

Alexandre Henry

ALVES, Alexandre Henry. A liberdade que me toca. Disponível em <http://dedodeprosa.com/conteudo/mododever/a-liberdade-que-me-toca/>. Acesso em: 25/09/2020