Antônio Pereira

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31 de Março de 2017 Antônio Pereira

Dona Olívia

Era filha do Domingos Antônio Calábria e sobrinha do Américo Zardo. Elvira, sua mãe, era irmã da Corina, mulher do Américo. Seu pai era maçom. Morreu com câncer na garganta. Ela estava com dezesseis anos. Poucos dias depois, quatro maçons foram à sua casa. Ela estava na cozinha, lavando pratos, com as mãos cheias de sabão. Os homens, todos de terno preto, ficaram lá na sala conversando com a mãe. Disseram: Dona Corina, nós viemos aqui trazer pra senhora uma ajuda da maçonaria porque a senhora ficou viúva com muitos filhos. Nós vamos ajudar a senhora. A senhora aceita? Um tanto acanhada aceitou alegando que não ia deixar os filhos passarem necessidade. Eles continuaram: Tem um lugar no Liceu para um filho da senhora que já tiver o diploma do curso primário. Dona Corina respondeu: olha, os alimentos eu vou aceitar, mas a escola, não, porque eu não tenho nenhum filho com o curso primário completo.

Lá na cozinha, Olívia não aguentou mais. Enxugou depressa as mãos no avental e saiu correndo porque eles já tinham se levantado para ir embora. Um minutinho, ela gritou. Pararam. Menina serve? Ela perguntou. Serve, responderam. Você tem o diploma do curso primário? Então vai lá no Liceu amanhã e pede para o professor Milton Porto te matricular que a maçonaria paga. Foi assim que ela se formou contadora. Mas a Loja mandava, de vez em quando, alguns obreiros ao Liceu saber se a protegida estava indo bem nos estudos. Sempre estava. Ela estudava, ajudava sua mãe em casa na cozinha, nas costuras, nos negócios. Era decidida. Quando havia algum problema no fórum, na prefeitura, onde fosse, ela que ia. Pequenina, mas corajosa.

Ajudou a criar os irmãos. O mais velho era o Olívio. Morreu cinco anos depois do pai. Depois veio a Sidônia, o Bruno, o Casério, o Fábio, o Neném, o Fausto e a Haidê. Assim que pode, Olívia arranjou emprego. Quem a ajudou foi o maçom Antônio Luiz Bastos que a colocou na Coletoria Federal, vendendo selos. Era muito amável, tratava bem os contribuintes de modo que, quando andava pelas ruas, que os encontrava, eles sempre lhe diziam: Oi, Olivia. Sua madrinha era muito engraçada. Um dia ela lhe perguntou: você conhece o Arlindo Teixeira? Claro que conhecia, ia muito à Coletoria. E a madrinha emendou: “Hum... que ar lindo! Até cheira!” Era um trocadilho. O Arlindo Teixeira era muito vaidoso. Andava muito bem vestido. Quando mais idoso, ficava à janela de seu casarão na praça dr. Duarte esperando os moleques passarem. Ele os chamava e perguntava: você sabe o meu nome? Quando o moleque respondia sei: é Arlindo Teixeira, ele fechava a cara e voltava-se para outro lado, como se não houvesse alguém à sua frente. Quando o moleque respondia: sei, é o coronel Arlindo Teixeira, ele abria aquele sorrisão e enchia a mão do moleque de balinhas.

Assim que a Olívia se encontrou com ele na rua, cumprimentou-o respeitosamente e perguntou como ele estava. Respondeu o velho coronel que não estava bem, quase tinha morrido de acesso (era o enfarto da época). Disse-lhe que lhe queria contar uma coisa pra ver se ele ia gostar. Pois conte, ele disse. Olívia fechou os olhos, respirou fundo e exclamou: “Que Ar...lindo! A...Té cheira!” O velho se babou de alegria. Riu de dobrar-se. Naquela noite, o “acesso” matou o velho coronel – um dos mais importantes da nossa história mais antiga. Fonte: Olívia Calábria

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