Antônio Pereira

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11 de Fevereiro de 2017 Antônio Pereira

Bêbado imitando bêbado

Por Uberlândia passaram grandes talentos. Alguns louvados até hoje, outros, esquecidos, como o humorista do rádio e cinema, Badu, o grande radialista Moraes Sarmento, o político Carlos Lacerda (que namorou a filha do agente da Mogiana), o produtor de rádio e TV, Aloísio Silva Araújo. Este foi grande produtor, criador dos famosos programas paulistas Recruta Vinte e Três e Cadeira de Barbeiro. No Cadeira, surgiram Manoel de Nóbrega e Ronald Golias, o Bronco. Araújo trabalhou na Educadora e, quando voltou para São Paulo levou vários artistas daqui. Um deles seria o Laci Caetano que não aceitou o convite. Laci era bom humorista, especialista em imitar bêbado.

Lá por 1963, procurei o Marçal Costa pra lhe passar uma ideia. Eu era novo na cidade e tinha pouco trânsito no meio cultural. Sugeri a ele a criação de uma agremiação sui gêneris: sem ata, sem sede, sem correspondência, sem protocolo, sem nada. A gente se reunia para conversar fiado e tomar uns goles. A primeira reunião foi na casa dele. As reuniões eram em rodízio, cada vez numa casa. O pessoal que se reunia para esse contato saudável, vinha de todas as áreas: escritores, músicos, pintores, fotógrafos, desenhistas, humoristas, professores, radialistas, pessoas cultas em geral. O presidente eleito foi o cônego Durval Garcia. Eu era o secretário, proforma, não havia atas nem correspondências. Passamos por várias residências e espaços particulares. Sempre havia um tira gosto e qualquer coisa pra se bebericar. Ouvia-se muita música, declamações, piadas. Laci sempre nos contava piadas novas.

Não me lembro bem onde, ele abusou um tanto dos goles e ficou meio grogue, sem dar vexame, claro. Resolveu contar uma, de bêbado, sua especialidade. Pôs-se no meio da roda e começou. Enroscava a língua, fazia pausas como quem esquecesse algum pormenor e o procurasse, ora pulava, ora repetia palavras. Estava meio irreconhecível. Marçal, ao meu lado, olhava-o surpreso. Não era o Laci conhecido. A piada não teve graça nenhuma não porque fosse má piada, mas porque fora mal contada. A imitação do bêbado, então, estava horrível. Marçal olhou-me indagativo: o que teria acontecido? Expliquei baixinho: ele está bêbado. Marçal sorriu: Logo vi, bêbado imitando bêbado não dá certo mesmo.

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