Antônio Pereira

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31 de Março de 2017 Antônio Pereira

A volta do boêmio

- Mas... depois de velho?...

Almerinda não entendia seu Joãozinho. De uns tempos para cá, só chegava à casa de madrugada, bêbado, conversando demais, alegre (ainda bem), todo sorrisos, querendo beijar a velha que se esquivava e reprovava:

- Deixa de ser sem vergonha, Joãozinho. Onde é que você esteve? Fazendo o que?

- Ora, minha velha...

Abraçava-a envolvendo-a no bafo alcoólico. Se lhe desse um empurrão, derrubava-o.

Acabavam indo dormir, ele, entregando-se logo ao sono, ela, aborrecida com aquela extravagância do velho, mas não demorava muito acordada. Afinal, o seu sossego era quando seu Joãozinho chegava.

Logo depois do jantar, ele saía. Dar uma volta. Ela ficava vendo novelas e o sono vinha com os filmes. Deitava-se, mas, como dormir? Seu Joãozinho já passava dos sessenta e cinco, o que ficava fazendo pelas ruas? E o pior: bebendo. Se os filhos morassem por perto, pediria que o corrigissem, mas moravam todos longe, em outras cidades. Pensava as piores coisas: podiam abusar dele, tomar-lhe coisas, relógio, dinheiro, bater nele, meu Deus! quantas coisas podiam fazer! As horas passando, o sono desaparecendo; a tevê aborrecia porque não conseguia prestar atenção e o som não lhe permitia apurar os ouvidos para escutar os passinhos curtos e arrastados do velho chegando. E quanto mais a noite se aprofundava, mais preocupada ficava. É que seu Joãozinho tinha que atravessar a avenida de saída da cidade cujo trânsito não esmorecia em momento algum. Eram ruídos nervosos de automóveis e graves de caminhões. Depois das onze, conseguia discernir ruído por ruído; seria capaz de contar os veículos que passavam, ainda que fossem dois ou três juntos.

Quanto mais tarde ficava, mais o perigo assombrava a velha porque o barulho aumentava. Depois da meia noite começava a cochichar rezas e a pedir a Deus que nada acontecesse. Só um bom anjo da guarda poderia guiar um velho bêbado atravessando aquela avenida. Cada ronco que se destacava do barulho comum, parecia-lhe a explicação de um acidente. Estremecia, o coração pulsava-lhe à flor do peito. Os dedos engelhados cruzavam-se, as mãos postas pedindo a Deus, a santos, a almas poderosas.

Naquelas horas passadas da meia-noite, ela vivia a expectativa da desgraça. O tempo se arrastando. Velho desmiolado. Ficando besta às vésperas da morte - irritava-se de tanto sofrer aquele rápido momento em que o danado tinha que atravessar a avenida.

Por tanta reza, até parece que, no momento exato de seu Joãozinho atravessar a avenida, o trânsito diminuía. Ela pressentia e conversava consigo mesma: “agora, ele vai chegar”.

Sempre a mesma cena.

Seu Joãozinho bêbado, uma fala mole, líquida, alegre, achando graça em tudo, querendo abraçar a velha, beijar (e quando o fazia, molhava-a de baba), despreocupado de qualquer explicação.

- Ora, minha velha...

- Mas, onde, Joãozinho, por quê, Joãozinho? A gente fica num desespero...

Tomava um café, se tinha. Jogava-se na cama, a cara iluminada, Almerinda aborrecida, mas sossegada da aflição.

O dia seguinte era comum. Ela nunca falava da véspera - cuidava da casa sem muita pressa, varria, cozinhava; ele ajeitava a hortazinha dos fundos, limpava o pequeno jardim da frente, cuidava de umas poucas galinhas, alisava o pelo do gato no sofá.

Quando ela começava a varrer o alpendre, ele se sentava no degrau do jardim e ficava olhando as folhas que tremelicavam ao vento.  Almerinda encostava-se no portão, vassoura descansando na parede. Ficavam longo tempo sem trocar palavra, quem sabe, ruminando coisas idas. Uma folha que caía despertava-os. Joãozinho despregava os olhos, Almerinda voltava à vassoura com um suspiro sem dor, nostálgico apenas.

Outras vezes, seu Joãozinho ficava rodeando a velha, principalmente quando ela estava na cozinha, conversando coisas sem importância. Um mandruvá na horta, um passarinho fazendo ninho na roseira, uma galinha que falhou na postura, o carteiro que deixou uma carta na casa da frente, uma dorzinha que sentiu em cima da boca do estômago, tomou um copo d’água e passou, o calo que anunciava mudanças climáticas. Almerinda resmungava respostas.

Depois do almoço, seu Joãozinho cochilava no sofá durante as notícias catastróficas da televisão. Almerinda fazia um tricô sem fim.

À tarde, a casa era fresquinha. Os velhos, dois bibelôs no sofá. A tevê parecia a única coisa dinâmica - o resto todo coisas arrumadinhas cada uma no seu lugar.

Depois do jantar havia um pequeno momento de tensão. Almerinda olhando enviesado para seu Joãozinho na expectativa do infalível.

De repente, ele pegava o chapeuzinho, batia na palma da mão e olhava para Almerinda um olhar que subia se explicando, pedindo compreensão.

- Vou dar uma voltinha.

Almerinda ia para a sala. Começava a novela das sete.

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