Antônio Pereira

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11 de Fevereiro de 2017 Antônio Pereira

A conta de luz

A mulher abre a porta e a sombra das saliências dançam no seu rosto sem destruir as marcas da mágoa.

Os dois olhares são duros. A labareda parece um macarrão molhado. Vai despencar, de repente, da inquietação da luz. Ele entra. Não trocam palavra. Senta-se à mesa e espera o jantar.

- Não vai se lavar?

As palavras caem como pedras. Ele amolece. Precisava ouvir uma fala amiga.

- Tô cansado. O trabalho foi puxado. Só acabamos agora. Tomo banho na hora de dormir.

A mulher vai com a lamparina para a cozinha. A escuridão engole quase tudo. Entra pela porta um quadrado de luz baça que negaceia pra lá e pra cá. Ele vê, em cima de um móvel, outra lamparina. Apagada. Pelo vidro da janela enxerga, lá longe, a luz do poste. Esfrega as mãos enquanto procura pensar em outra coisa, esquecer-se da lamparina.

Chega o prato feito.

- Nequinho já foi pra cama?

Não responde.

- Já?

- Já.

Começa a comer. O menino resmunga no quarto. Para e ouve. O menino chora. O choro vai aumentando intercalado com chamados à mãe. Não volta a comer. Olha a mulher que entra no quarto e traz o menino no colo.

- Tem nada, não, filhinho. Você fica no colo da mamãe.

- A senhora não me põe sozinho no quarto?

- Não.

- Nem depois que eu dormir?

- Não, meu neguinho.

- Quê que o menino tem?

- Tá com medo do escuro.

Silêncio. Ele volta a comer. Os olhos da mulher faíscam. Quer falar, agredir. O menino ressona. Ela reclama baixinho.

- Que vergonha, que miséria, meu Deus! A gente dentro da cidade com lamparina em casa... ainda se não houvesse força.

Ele sente. Endurece.

- Culpados são vocês. Vinte e sete contos de luz num mês! Num mês só! Como se eu fosse rico.

- Já cansei de falar pra você que foi a companhia que aumentou. Não fui eu, não foi ninguém. Ou você pensa que só aqui em casa é que aumentou?

- Já disse uma vez – e está acabado! – Já que ninguém me ajuda, só querem me sugar, pronto! acabou-se! não tem mais luz aqui em casa! Vinte e sete contos! Até parece que caem do céu... ninguém quer saber de economia... é só conforto!

- Economia... parece que a gente vive esbanjando. Vive. A gente vive esbanjando é pobreza!

- Economia, sim senhora. Sabe quanto eu economizei neste mês? Vinte e sete contos que eu não paguei e nem nunca vou pagar. Não sou rico. Se vocês não me ajudam, eu mesmo resolvo o problema: acabou! não tem mais luz!

- Vida desgraçada! É uma trabalheira danada o dia inteiro, a vida inteira... pra quê?

- Mas vocês bem podiam economizar e as coisas seriam outras. Gastar menos... gastar menos luz.

- Foi a companhia que subiu.

- Pensa que eu não sei? O rádio fica ligado o dia inteiro.

- Grande coisa! Como se o rádio fosse comer vinte e sete contos de luz... Foi a companhia, entende? A companhia! Eles aumentam a hora que querem!

- E não é só o rádio, não. Quantas vezes vocês iam ao banheiro e deixavam a luz acesa? Eu que sei, porque quem apagava era eu. Você tinha esse mal costume e ainda ensinou o menino.

- Que o quê, seu! Você é que não tem o que falar, fica inventando.

- Inventando? você ia na cozinha, ficava a luz acesa. Ia lá fora, ficava a luz da porta acesa. No banheiro, a mesma coisa. Faltou economia. Eu trabalhando que nem um burro na oficina e vocês desperdiçando sem dó nem piedade. E vai dizer que não foi você que viciou o menino a dormir com a luz acesa? Ainda se a gente tivesse geladeira, televisão, ainda se justificavam os vinte e sete contos. Mas o que é que a gente tem além do rádio?

- Não temos nada, mesmo. E até acho bom você falar nisso. Sabe por quê? Sabe por quê? Porque você não presta é pra nada! Casa onde homem como você for chefe, nunca vai entrar televisão, não. Nem geladeira. Nem nada. Faz dez anos que você está enfiado naquela oficina e nem pra diante nem pra trás. Só tem aumento se o salário mínimo aumentar. Fora disso... sabe o que mais? Ai de nós se eu não me metesse no tanque. Se eu não lavasse pra fora. Era capaz até de o menino passar necessidade. Ora, ora, quem é você pra falar em economia, em televisão, em geladeira? Será que o Onofre não lhe serve de exemplo? não lhe entusiasma? Não lhe traz nenhuma vontade de melhorar na vida? É só pra trás? Prá trás?

- Com vocês aqui em casa me comendo pelo calcanhar enquanto eu me mato na oficina? Nunca! Nunca! Nunca vai haver melhora se vocês não entenderem que precisam me ajudar. E você pensa que o Onofre ganha muito mais do que eu?

- Não ganhava. Mas foi lutando, foi vencendo, foi subindo. Na casa dele tem geladeira e televisão. E na nossa? Tem essa merdinha desse rádio que mais chia do que fala. Isso sim, se você não sabe, o Onofre hoje é chefe! Chefe, viu? Você nunca vai ser nada!

O marido dá um murro na mesa e, em seguida, joga o prato pra frente. O menino acorda.

- Quê que foi, mamãe?

Os olhinhos arregalados. Olha o pai.

- Quê que foi, papai?

Amolece. Sorri.

- Nada, meu filho.

Olha para a mulher pedindo cumplicidade.

- A lata de feijão que caiu.

O menino ajeita-se no colo da mãe.

- Papai, por quê que está escuro?

O olhar da mãe fisga o olhar do pai que não ousa voltar ao menino.

- É que...

O menino estende os braços. O pai toma-o. O olhar escapa.

- O senhor não tem medo do escuro?

Balança o menino no colo.

- Quando o senhor está aqui, eu não tenho medo. – Enlaça o pescoço do pai.

- Dá um beijinho no papai. Outro. Do lado de cá.

Esquece-se da mulher. Ela se levanta e vai para a cozinha. Deixa a lamparina.

- Quando é que a luz vai voltar, papai?

Coça a cabeça. Amolece totalmente. Engole a saliva. Faz cálculos rápidos, sem números, e sente que o salário não dá. As despesas se empurram, se espremem dentro do orçamento. Não cabe mais nada. De onde tirar? De onde?

- Amanhã, meu filho. Amanhã, se Deus quiser...

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