Antônio Pereira

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4 de Março de 2017 Antônio Pereira

A aventura feliz de Simeão, o Grevista

Simeão era um moreno forte, semianalfabeto e com pouca disposição para o trabalho. Conseguira, com sorte, um lugarzinho no serviço de limpeza de uma companhia de transportes, na avenida Presidente Wilson, do lado da Mooca. Isso foi há doze anos. Manejava a vassoura com a característica lentidão com que fazia tudo, o que lhe valeu o apelido de Simeão Ponto Morto. Sua obrigação era espanar e varrer as duas salas do escritório, passar um vassourão no pátio e mantê-lo, mais ou menos, limpo e deixar as instalações sanitárias em condições higiênicas de uso. Lá uma vez ou outra, tirava o pó dos armazéns. Era o dia todo nessas obrigações. Às vezes, era visto coçando a cabeça, vassoura encostada de lado. Tinha, então, um olhar vago. Sonhava. Eram aventuras movimentadas, onde ele, grande líder, mandava e desmandava, fazia e desfazia.

            Era uma criança enorme, medrosa e vagabunda. Mas, devaneava. Sentia-se maior do que era, trabalhador incansável, corajoso, decidido. Líder justo distribuía justiça dura, mas equitativa. Despertava, armava os olhos sonsos, que se moviam lentos como sua cabeça e seu corpo.

            Acima dele, tinha o Chico Sujeira que cuidava do material e que as cargas estivessem no lugar onde não se deteriorassem. Fazia o café, que o Simeão servia, abria e fechava as portas da companhia e dava ordens ao seu único subalterno: o Simeão Ponto Morto.

            Simeão era doido por um bate-papo. Tinha vez em que perdia a tarde toda na limpeza do pátio. Mal dava a primeira vassourada aparecia um motorista que esperava carga e, pronto! Ele se embevecia com as histórias da estrada. A mulherada, as brigas, os acidentes, as valentias, as aventuras, tudo mentiras que envolviam o Simeão em sonhos, revivendo as fanfarronadas dos choferes.

            Para um bate-papo, uma discussãozinha sem consequências, ele era esperto. Tinha casos e casos pra contar, a maioria mentiras. A fala, às vezes, é que lhe dava trabalho, porque a palavra certa não vinha. Palavrões, xingamentos eram com ele. Sem raiva. Fingia, de vez em quando, ficar nervoso. Depois dava um risinho maroto. Gostava de onda. A fala era mansa, mas a voz era forte e, quando queria, falava grosso. Quem o visse, pela primeira vez, numa discussão, acreditaria que, de repente, ele pularia no pescoço do interlocutor. Apesar do porte, nunca enfrentou ninguém pra valer. Tinha medo, apesar da compleição. Nascera para submeter-se. Se alguém berrasse mais alto que ele, ou lhe fizesse cara feia, ele se encolheria como um balão que perde o fogo.

            Aos motoristas, Simeão não servia apenas para conversar. Divertia-os, também. Brincavam com ele. Punham-lhe rabos de papel, esporas, tapeavam-no de todo jeito. Ele ria. Raramente dava o estrilo. Parecia que esganaria alguém, mas, qual. Ficava nisso. E, assim, ia levando sua vidinha mole, ganhando seu salariozinho sem descontos porque não era registrado. E não ligava pra isso.

            Não tinha documentos. Nunca se preocupara em possuí-los. Em compensação, nos doze anos de trabalho, nunca gozara férias.

            Um portão largo, alto, com pequena cobertura, era a entrada da firma. Do lado direito, as duas salas do escritório. De frente à primeira janela, ficava a mesa do Genésio, um rapazinho encarregado do ponto. À direita da janela, o relógio de ponto ladeado pelas duas chapas onde se metiam os cartões. Simeão tinha ódio, medo do “danado”. “Danado” era o relógio de ponto. Não batia cartão, mas o “danado” vigiava-o com aquele olho inexorável do mostrador. Chegasse atrasado um dia e o Genésio já poria a cabeça de fora, como fazia com todos, e consultaria o “danado”. Lá se ia o domingo. Nunca chegara atrasado. Em doze anos.

            Morava num quartinho, em fundo de pensão ordinária, para os lados do Ypiranga, lá perto do fim da avenida. Acordava cedinho, mais por hábito, e vinha calmamente a pé. O mais tarde que chegou à companhia, foi numa terça-feira, não se lembrava de que mês nem de que ano. Chegara faltando doze minutos para as oito.

            Há pouco tempo, por ocasião da mudança do salário mínimo, de cinco mil e novecentos para nove mil, quatrocentos e quarenta, estouraram greves sobre greves. Alguns patrões cuidaram de corrigir apenas o salário de quem ganhava o mínimo ou estava entre o velho e o novo mínimo. A mudança veio com o encarecimento da vida e quem ganhava mais queria um reajuste. Daí as greves.

            Simeão gostava das notícias sobre as greves. Quando topava com alguém lendo jornal, aproximava-se arrastando a vassoura, já perguntando:

            - Tem greve, seu Guinelo?

            - Tem, Ponto Morto, do sindicato dos metalúrgicos. Querem 40% de aumento.

            - Será que vão ganhar?

            - Não sei. Começaram hoje.

            - Deus ajude eles, e não se esqueça da gente também, né seu Guinelo?

            Simeão não tinha ideia do que fosse um sindicato. Imaginava um grupo de trabalhadores, sem organização, que aos pescoções e berros, violências e atrevimentos, resolviam coisas assombrosas. Gostaria de ver um, de entrar no meio de um. Chegara a sonhar com uma greve na companhia. O sindicato virando cargas, gritando, depredando caminhões, sujando tudo, quebrando o “danado”, derrubando o portão. Quem que pode com um sindicato? Nem a polícia. E ele lá no meio. O mandão dos sonhos. Rodeado por todo mundo que esperava ordens:

            - Quebrem o danado!

            Na primeira segunda-feira após a deflagração da greve dos metalúrgicos, Simeão, de manhãzinha, vinha para o serviço quando topou, logo no início da avenida Presidente Wilson, com um piquete de 50 a 100 operários, animados, carregando cartazes. Simeão arregalou os olhos surpresos e alegres.

            - Um “sindicato”!

            Cresceu-lhe a vontade de estar lá no meio.

            Vinham apressados, conversando alto, uns calmos, mas dispostos, outros exaltados. Devagarinho, Simeão foi se aproximando, curioso de ver o “sindicato” mais de perto. Parecia um moleque acompanhando banda de música. Pegou o ritmo da passeata. Tocou no ombro de um.

            - É dos metalúrgicos?

            - É.

            O operário continuou sua marcha, sem ligar para o Simeão.

            - Que beleza, né?

            Simeão foi seguindo e se infiltrando. Estava doido para estar lá no meio. Daí a pouco já não estava ao lado, estava dentro, atrás do cara que lhe respondera. Ia. Olhava pra um e pra outro. Analisava os rostos, parecia tudo gente amiga, mas brava. Às vezes se desligava olhando algum cartaz que não conseguia decifrar, levava uma trombada e ia. Cutucou na barriga de um que levava cartaz, o cabo apoiado na cintura.

            - Que tá escrito aí?

            - Não queremos morrer de fome!

            - Nem eu. Tá muito certo. Não queremos morrer de fome.

            O trejeito das faces, o aperto dos lábios, aprovavam.

            O cara olhou o Simeão, sorriu pra ele. Simeão devolveu o sorriso.

            - Tô com vontade de ir com vocês...

            - Pois, vamos, companheiro!

            - Não queremos morrer de fome!

            Gritou o Simeão com seu vozeirão que quase todo mundo escutou.

Estava feliz de estar num “sindicato”. Cabeça erguida, orgulhoso. Cada grevista parecia-lhe um velho companheiro. Expunha um sorriso de confraternização. Pisava firme como um soldado. Inflava o peito. Começava a viver um sonho.

            Iam passar pela primeira indústria metalúrgica da avenida. Alguns operários, vencidos, entravam pelo portão. Mal os viram, os grevistas, de longe, começaram a gritar. E brandiam os cartazes no ar.

            - Ei, ei, ei!

            Apertaram o passo. Simeão assustou-se com a mudança do ritmo e os gritos. O pessoal parecia exaltado. Teve medo, pensou em sair fora, mas recuperou a confiança quando sentiu que a massa o arrastava com segurança rumo à entrada de serviço sem que os vigilantes da empresa a molestasse. Mais confiante ficou ao perceber que os operários que entravam na fábrica paravam, mudavam o semblante e engrossavam o caudal rebelde. Simeão esticou o olhar ainda indeciso para os guardas. Estavam recolhidos à insignificância de seu pequeno número. Não se controlou mais. Ergueu os braços e soltou o vozeirão:

            - Ei, ei, ei!

            O grupo parou diante do portão. Simeão furou e chegou à frente. Cresceu-lhe a coragem. Correu os olhos pelo pessoal. Continuavam a gritar:

            - Ei, ei, ei!

            Faziam sinais para os que já estavam dentro da fábrica para saírem. Simeão convenceu-se do poder do “sindicato” ao notar que os lá de dentro atendiam o chamado e saiam, com os rostos iluminados. Incorporavam-se. E também gritavam:

            - Ei, ei, ei!

            Simeão imitava-os:

            - Ei, ei, ei!

            Abanava os braços. Dava sinais.

            Quando o grupo se afastou, Simeão ficou olhando pra trás, para os guardas inertes e convenceu-se da força de todos que estavam ali.

            Agora ia entre os vanguardeiros. Na frente. Uma satisfação imensa, o rosto brilhando, os lábios num sorriso constante. Os olhos arregalados iam de rosto em rosto, deslumbrados. Estava inquieto. Uma ansiedade gostosa. Perguntava. Dava palpites. Acreditava naquilo. Era verdade: o “sindicato” era um poder. E se sentia poderoso como membro dele.

            Nova fábrica. Gritos. Acenos. Simeão à testa do grupo. Trabalhadores abandonavam a fábrica e engrossavam a massa. Um deles, no entanto, jovem, saia inseguro, encolhido, esfregando as mãos. Nervoso e medroso. Parou a alguns passos do portão. Levou uma das mãos à boca. Parou. A cabeça baixa. Os que estavam na frente do grupo, silenciaram. Aguardavam alguma coisa diferenciada. O rapaz pôs-se de costa para o portão, enfiou as mãos nos cabelos. Ficou assim por poucos segundos. De repente, desceu os braços e voltou para o interior da fábrica. Foi muito rápido. Simeão correu os olhos pelos companheiros. Estavam surpresos, espantados, indignados. Podiam explodir em vaias. Simeão escapou do piquete, passou pelos guardas que também estavam na expectativa, agarrou o furão pelos ombros e arrastou-o para fora, sem qualquer reação. Despertos pelo inusitado, os guardas resolveram barrar Simeão, mas recuaram diante das vaias, assobios e gritos da turba que avançou e rodeou os dois protegendo-os. O rapaz começou a chorar. Justificava-se. Não sabia fazer nada, era um semianalfabeto que só sabia varrer, higienizar sanitários. Empregado facilmente substituível. Casado, com filhos menores. Não podia ficar desempregado.

            - A nossa greve é para o bem geral, mas isso há que ser com garantias.

            Simeão ouvia atento o diálogo dos líderes com o jovem trabalhador.

            - Essa é uma de nossas reivindicações: garantia.

            - Ninguém vai mandar ninguém embora por causa da greve. Coragem, rapaz!

            Simeão aproximou-se do jovem que esfregava os olhos. Condoía-se. Pousou a mão em seu ombro.

            - Vamos dar um jeito nisso. Me desculpe.

            O jovem se refazia. Ganhava confiança. Animava-se com o entusiasmo à sua volta.

            - Tudo vai dar certo.

            Deu-lhe uma palmada no ombro.

            - Vai dar certo.

            Voltando-se para a retaguarda, Simeão, com seu vozeirão confirmou:

            - Tudo vai dar certo!

            O grupo respondeu:

            - Tudo vai dar certo!

            Entusiasmou-se. A resposta em coro reforçou-lhe a confiança. Uma sensação de domínio, como nos seus sonhos. Encheu os peitos, ergueu os braços, mas não lhe veio nenhuma ideia do que gritar. Arriou os braços. O jovem ao seu lado riu da sua desistência. Simeão riu também e repetiu, em voz baixa:

            - Tudo vai dar certo!

            - Vai.

            O piquete avançava, crescia. Simeão passou à frente. Poderoso membro de um piquete que era a sua proteção. Olhou para trás. O número de piqueteiros dobrara. Precisava gritar, pular.

            - Viva a greve!

            - Viva!

            Simeão exultou com o retorno.

            - Viva... o sindicato!

            - Viva!

            Era uma coisa extraordinária. Ele comandava de verdade. Arrastava o piquete. Dominava.

            - Viva os metalúrgicos!

            - Viva!

            Alguns operários não acompanhavam a euforia. Observavam a exultação do Simeão. Era um novo líder desconhecido que se impunha. Movimentava-se, gritava, expunha-se, arriscava-se.

            - Quem será?

            - Não conheço.

            - Não trabalha na nossa firma.

            - É um moço de valor. Precisamos de gente assim. Que nem o Guedes. Gente que mande e que faça também.

            - Que nem o Guedes, diretor, mas que se mete com a gente nos barulhos...

            - Quando a gente voltar pro sindicato, vamos procurar saber quem é ele. Quem sabe, nas próximas eleições, ele possa estar com o Guedes?

            Simeão não percebia que era observado. Seguia aos gritos que se espalhavam por toda a massa, liderando o pessoal.

            - Viva os quarenta e cinco por cento!

            - Viva!

            - Quarenta... seu, seu, como é seu nome mesmo?

            - Quanto mais, melhor.

            O Guedes pegou um parceiro pela manga do paletó.

            - Lá na sede vamos ver onde esse cara trabalha. Precisamos dele.

            Sem perceber nada, Simeão tomou o cartaz de um operário e saiu pulando com ele, agitando-o, gritando, dançando. A turma acompanhava seus movimentos, animada.

            - Vai dar tudo certo!

            - Vai!

            De tanto movimento, Simeão ofegava, mas não perdia o entusiasmo. Sentia vontade de falar, também, contar coisas, quem sabe, mentiras. Quando não gritava as mesmas ordens, os mesmos vivas, iniciava conversas que não terminavam com parceiros do lado. Coisas sobre trabalho, direitos simplórios de quem trabalha, Genésio, seu Guinelo, o “danado”.

Os operários se perguntavam:

- Quem é ele?

De repente, Simeão estacou. O rosto perdeu o brilho, a cara ficou seca e séria. Os olhos corriam desconfiados daqui prali. Amedrontou-se. Despertou. Caia do sonho. Curvou-se um pouco, afastou-se da vanguarda, deixou-se engolir pelo grosso do piquete. Ficou pequenino lá no meio. É que surgira lá na frente, o portão da companhia de transportes. Simeão acordou para a sua insignificância. O cabo do cartaz pareceu-lhe um cabo de vassoura. Passou-o a outro companheiro. Encolheu, curvou-se, escondeu-se. Com o canto dos olhos acompanhava a chegada da entrada da sua empresa. Motoristas à porta, rindo, falando alto, Simeão medroso de ser reconhecido. Falavam dele? Riam dele? De repente, o olho comprido do “danado”: oito e trinta! Primeira vez que se atrasava. O “danado” acusava! Genésio poria, daqui a pouco, a cabeça de fora. Encolheu mais e foi passando...

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